O Sistema Único de Saúde (SUS) poderá oferecer, ainda este ano, uma nova alternativa para a prevenção do HIV. Trata-se do cabotegravir de ação prolongada, um medicamento injetável utilizado como Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), aplicado a cada dois meses. A proposta já foi encaminhada pelo Ministério da Saúde para análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), prevista para agosto.
Caso seja aprovado, o medicamento ampliará as opções disponíveis para pessoas que não vivem com HIV, mas apresentam maior risco de exposição ao vírus. Diferentemente da PrEP oral, que exige o uso diário de comprimidos, o cabotegravir mantém sua ação preventiva por cerca de dois meses após a aplicação.
Como funciona a PrEP injetável?
O cabotegravir é um medicamento antirretroviral que atua impedindo a replicação do HIV no organismo. No Brasil, ele recebeu registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2023, sendo comercializado com o nome Apretude. A aplicação é feita por via intramuscular e, após as doses iniciais, ocorre a cada dois meses.
Antes de iniciar o tratamento, é necessário realizar exames para confirmar que a pessoa não possui infecção pelo HIV. Além disso, o acompanhamento médico continua sendo indispensável durante todo o período de uso do medicamento.
É importante destacar que a PrEP injetável não é uma vacina. Ela protege especificamente contra a infecção pelo HIV, mas não previne outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia ou hepatites virais. Por isso, especialistas recomendam que seu uso faça parte da estratégia de prevenção combinada, que também inclui preservativos, testagem regular e acompanhamento nos serviços de saúde.
Estudos apontam alta adesão ao medicamento
Uma pesquisa realizada pelo estudo ImPrEP CAB Brasil acompanhou 1.447 participantes em seis cidades brasileiras. Entre aqueles que puderam escolher a forma de prevenção, 83% optaram pelo medicamento injetável, enquanto 17% preferiram a versão oral da PrEP.
Segundo os resultados divulgados pelo estudo, 94% das aplicações foram realizadas dentro do prazo recomendado. Durante o acompanhamento, nenhum caso de infecção pelo HIV foi registrado entre os participantes que utilizaram o cabotegravir.
Dados apresentados pela fabricante também apontaram efetividade superior a 99% em estudos que reuniram quase quatro mil participantes.
Medicamento não substituirá a PrEP oral
O Ministério da Saúde reforçou que a possível incorporação do cabotegravir ao SUS não significa o fim da PrEP oral, que continuará sendo oferecida gratuitamente na rede pública. Desde sua implementação no país, mais de 356 mil pessoas já iniciaram o uso da profilaxia pré-exposição disponibilizada pelo SUS.
A proposta é ampliar as alternativas disponíveis, permitindo que profissionais de saúde e usuários escolham a estratégia mais adequada para cada situação.
Lenacapavir ficou de fora das negociações
Outra opção avaliada pelo governo brasileiro foi o lenacapavir, medicamento injetável administrado apenas duas vezes ao ano, a cada seis meses. Considerado um dos maiores avanços recentes no combate ao HIV, o fármaco foi recomendado pela Organização Mundial da Saúde como estratégia preventiva em 2025.
Apesar dos resultados promissores, o Ministério da Saúde informou que o preço apresentado pela fabricante foi considerado incompatível com a aquisição em larga escala pelo SUS. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o governo chegou a considerar pagar um valor até dez vezes superior ao praticado em alguns países asiáticos, mas as negociações não avançaram.
O Brasil participou dos estudos clínicos do medicamento, mas não foi incluído no acordo internacional que permite a produção de versões genéricas destinadas a 120 países. Atualmente, existem conversas para uma possível parceria envolvendo a Fundação Oswaldo Cruz, embora ainda não haja compromisso firmado para sua fabricação no país.
Próximos passos
A proposta de incorporação do cabotegravir será analisada pela Conitec nas próximas semanas. Somente após a recomendação do órgão e da decisão final do Ministério da Saúde serão definidos o público prioritário, o cronograma de implementação e as condições para distribuição do medicamento na rede pública.
Até lá, a PrEP oral continua disponível gratuitamente no SUS para pessoas que atendam aos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.