Celebrado em 17 de maio, o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia reforça a importância da luta por respeito, cidadania e direitos da população LGBTQIA+ em todo o mundo. A data marca a decisão histórica da Organização Mundial da Saúde (OMS), que, em 1990, retirou a homossexualidade da lista de transtornos mentais.
Em 2026, o tema da campanha internacional é “No Coração da Democracia”, destacando a necessidade de proteger direitos e combater ataques à diversidade sexual e de gênero. A mobilização também chama atenção para o avanço de discursos discriminatórios e para a necessidade de fortalecer políticas públicas de inclusão.
No Piauí, apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, os desafios ainda persistem. Dados do relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado neste ano, apontam que o estado registrou índices de violência contra a população LGBT+ acima da média nacional em 2025. O Nordeste segue como a região mais letal para essa população, concentrando 25,7% dos casos registrados no país.
Resistência e preconceito
O designer de moda Winnycius Aires conhece de perto os impactos do preconceito. Desde cedo, ele precisou lidar com comentários ofensivos e estereótipos relacionados à profissão e à sexualidade.
Segundo ele, muitas pessoas associavam a moda a padrões preconceituosos, transformando sua escolha profissional em motivo de piadas e bullying, principalmente durante o período escolar e em alguns ambientes sociais.
“Já ouvi que ‘moda não era coisa de homem’ e precisei lidar com olhares e comentários maldosos. Com o tempo, fui entendendo que ocupar esse espaço também é uma forma de resistência”, relatou.
Apesar das dificuldades, o designer afirma perceber mudanças importantes nos últimos anos, especialmente dentro da universidade e do próprio mercado da moda.
“Acredito que hoje exista mais espaço e mais diálogo do que antigamente, principalmente dentro da universidade e da moda, que sempre foi um ambiente muito ligado à expressão e à criatividade. Mas ainda existem muitos preconceitos velados”, disse.
Winnycius destaca ainda que a construção de sua trajetória profissional também passou pela busca por acolhimento e reconhecimento em meio aos desafios enfrentados como homem LGBTQIA+ no estado. Atualmente, ele atua valorizando a moda como ferramenta de expressão, autoestima e identidade.
Em outro momento, o designer relembrou episódios de preconceito que enfrentou como homem gay no mercado de trabalho. Uma das situações mais marcantes aconteceu durante a busca por um estágio, quando ouviu que não poderia ocupar determinada vaga porque algumas clientes “não se sentiriam confortáveis”.
“Foi algo que me marcou muito. Mas ao mesmo tempo isso me fez perceber o quanto ainda precisamos quebrar certos preconceitos”, afirmou.
Para ele, assumir sua identidade e deixar de se moldar aos padrões impostos socialmente trouxe impactos positivos tanto na vida pessoal quanto na trajetória profissional. Ao longo desse processo, Winnycius também aprendeu a reconhecer e denunciar situações de preconceito e discriminação, compreendendo a importância de não silenciar diante da LGBTfobia.
“Acho que a maior mudança foi a liberdade. Quando você para de tentar se encaixar no que esperam de você, começa a viver de forma mais leve e verdadeira”, pontuou.
Políticas públicas
No Piauí, ações de combate à LGBTfobia vêm sendo desenvolvidas por órgãos públicos e instituições de defesa dos direitos humanos. A promotora de Justiça Myrian Lago, subcoordenadora do Centro de Apoio Operacional de Promoção da Cidadania e Inclusão Social (Caocis) do Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI), destaca que o órgão atua em diferentes frentes voltadas à garantia de direitos da população LGBTQIA+.
Entre as iniciativas citadas está o projeto interinstitucional “Respeito: Polícia e Diversidade”, desenvolvido desde 2021 em parceria com o Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gacep) e a Secretaria de Segurança Pública do Piauí.
A proposta busca fortalecer o enfrentamento à violência contra pessoas LGBT+, promovendo a coleta de dados qualificados, a capacitação de agentes das forças de segurança e a elaboração de protocolos específicos para atendimento da população LGBTQIA+.
Segundo a promotora, o projeto já resultou na produção de boletins anuais sobre violência contra LGBT+ e em formações destinadas a policiais civis, militares e bombeiros.
Outra frente de atuação envolve a garantia do uso do nome social nas redes públicas de saúde e educação, especialmente para pessoas trans e travestis.
“Na área da educação, o respeito ao nome social é um dos principais fatores para evitar-se a evasão escolar”, destacou Myrian Lago.
Ela também citou iniciativas voltadas à melhoria das condições de funcionamento do Ambulatório de Saúde Trans Makelly Castro, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi).
Conscientização
Para a promotora, o combate à LGBTfobia passa não apenas pela atuação do poder público, mas também pelo envolvimento da sociedade civil.
“Preconceito, o conceito que se faz antes de se conhecer determinada pessoa, matéria ou situação, começa a ser demolido com o conhecimento e, por tabela, com a conscientização e a intervenção ativa em situações de intolerância”, afirmou.
A promotora também reforçou que atitudes simples podem contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva, como respeitar o nome social, denunciar crimes motivados por preconceito e apoiar profissionais LGBTQIA+.
“Somente a atuação articulada e permanente entre o poder público, suas instituições e a sociedade podem garantir os direitos básicos dessa população, em nome do respeito à dignidade humana”, completou.
Rede de apoio
O Piauí também conta com o Centro de Referência para Promoção da Cidadania LGBT, localizado na Rua Álvaro Mendes, nº 2090, no Centro de Teresina.
O espaço oferece gratuitamente serviços voltados à população LGBTQIA+, incluindo emissão de carteira com nome social, orientação para retificação de nome e gênero, além de atendimentos psicossociais e jurídicos.
O local funciona como uma rede de acolhimento e apoio para pessoas que enfrentam situações de vulnerabilidade, discriminação ou violência, fortalecendo o acesso à cidadania e aos direitos básicos da população LGBTQIA+ no estado.