- O Piauí pode sofrer impactos graves de ondas de calor previstas para setembro a dezembro, segundo análise do Cemaden.
- Estudo aponta pelo menos seis episódios de calor extremo no Brasil até o fim do ano, com risco de aumento de incêndios.
- As ondas de calor estão mais frequentes e abrangentes, especialmente após 2020, afetando áreas maiores do país.
- El Niño pode intensificar o calor e a seca, com previsões de temperaturas acima da média a partir de setembro.
- 157 municípios estão em situação de seca severa, e 560 municípios estão em alto risco de incêndios, segundo relatórios oficiais.
O Piauí está entre os estados do Norte e Nordeste que podem sentir os efeitos das novas ondas de calor previstas para o Brasil entre setembro e dezembro, segundo análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O levantamento aponta a possibilidade de pelo menos seis episódios de calor extremo no país até o fim do ano, cenário que pode agravar a seca e aumentar o risco de incêndios em regiões que já enfrentam períodos de estiagem.
A projeção considera o histórico de 47 anos de registros de temperatura e o comportamento observado em períodos de El Niño. De acordo com os pesquisadores, a quantidade de ondas pode ser ainda maior caso o fenômeno climático se intensifique.
Calor mais abrangente
O estudo mostra que as ondas de calor passaram a ocorrer com maior frequência e em áreas mais extensas do território brasileiro. Nas décadas de 1980 e 1990, os episódios eram mais raros e concentrados em determinadas regiões.
A partir de 2010, principalmente depois de 2020, os eventos passaram a atingir áreas maiores e, em alguns episódios, praticamente todo o país ao mesmo tempo.
Segundo a pesquisadora Mabel Calim Costa, do Cemaden, o cenário pode ser mais intenso diante do aumento das temperaturas dos oceanos.
“Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes. Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país”, explicou.
Reflexos no Piauí
Embora a análise não apresente uma previsão específica de quantas ondas de calor atingirão o Piauí, o estado está inserido na região Norte e Nordeste, apontada pelos pesquisadores como uma das áreas que devem sentir com maior intensidade os efeitos da combinação entre calor e estiagem.
A pesquisadora Ana Paula Cunha, especialista em secas, explica que essas regiões já apresentam sinais de chuvas abaixo do esperado.
“As regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo isso com registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões”, afirmou.
O calor prolongado pode aumentar a perda de água do solo e das plantas por meio da evapotranspiração, reduzindo ainda mais a umidade e contribuindo para o avanço da seca.
El Niño
A previsão também está relacionada à expectativa de um El Niño de forte intensidade. Segundo os especialistas, os primeiros sinais do fenômeno devem começar a ser sentidos em setembro.
O pesquisador Marcelo Seluchi, especialista em Ciências Meteorológicas, afirma que o aumento das temperaturas dos oceanos pode favorecer períodos de calor mais frequentes e prolongados.
“Isso nos mostra que podemos esperar um calor intenso já a partir de setembro, com ondas de calor acontecendo com maior frequência, intensidade e duração”, explicou.
As previsões para setembro indicam temperaturas acima da média em grande parte do Brasil, com algumas áreas podendo registrar até 3°C acima da média.
Seca e incêndios
O calor também aumenta a preocupação com os incêndios. Dados do Índice Integrado de Seca, produzido pelo Cemaden para o governo federal, apontam que 157 municípios brasileiros já estão em situação de seca severa, principalmente no Norte e Nordeste.
Outro levantamento, realizado pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), aponta que 560 municípios estão em nível alto de risco de fogo.
As áreas classificadas nesse nível somam mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a mais de 35% do território brasileiro. A região entre a Amazônia e o Pantanal aparece como uma das mais vulneráveis.
O governo federal criou, desde maio, um gabinete de crise para atuar diante dos possíveis impactos do El Niño. A mobilização inclui mais de 4,6 mil brigadistas federais para reforçar o combate aos incêndios no país.
O que é uma onda de calor?
Uma onda de calor não corresponde apenas a um dia de temperaturas elevadas. Para ser caracterizado como tal, o fenômeno precisa apresentar temperaturas máximas e mínimas excepcionalmente acima do normal durante pelo menos três dias consecutivos.
O período de 2023 a 2024 registrou o maior número da série histórica analisada: foram nove ondas de calor entre agosto e dezembro, mais que o dobro da média brasileira, de quatro episódios.
Para os próximos meses, os pesquisadores ainda não conseguem determinar exatamente quando ocorrerá a primeira onda de calor. A expectativa, porém, é de que o calor ganhe intensidade a partir de setembro e permaneça como um dos principais efeitos do El Niño até o fim do ano.