Projeto de grafiteiro envolve arte e transformação social nas periferias de Teresina

José Eduardo Alemão atua no resgate jovens em situação de vulnerabilidade por meio de oficinas gratuitas de grafite

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Grafiteiro José Eduardo Alemão usa seu talento para resgatar jovens em situação de vulnerabilidade | Raíssa Morais

O grafite atrai olhares e contrasta com as cores sóbrias do meio urbano. De caráter espontâneo, surge nas laterais de edifícios governamentais, em campi universitários e em paredes ao longo de parques, rodovias, casas em ruínas ou ruas sem saída.

Constantemente usado para expressar temas como desigualdade, justiça social e identidade, essa arte adiciona um elemento de espontaneidade e liberdade de expressão no dia a dia da população. Para alguns, como o grafiteiro José Eduardo Alemão, o spray é também uma poderosa ferramenta de transformação social. Ele utiliza a arte urbana para ajudar no resgate de jovens em situação de vulnerabilidade nas periferias do Piauí. 

Frase Vai Dar Certo é uma das assinaturas do trabalho de Alemão (Foto: Raíssa Morais)

TRANSFOMANDO VIDAS

Natural de Porto Alegre (RS) e morando há 30 anos em Teresina, Alemão decidiu implantar na capital um projeto para ensinar técnicas de grafitagem gratuitamente, com o intuito de estimular a criatividade de jovens e adultos. 

José Eduardo Alemão, de 44 anos, montou um projeto que envolve grafite e resgate de jovens em situação de vulnerabilidade (Foto: Raíssa Morais)

As cores vibrantes e as mensagens educativas de seus grafites dão vida a diversas regiões da capital, abordando temas como amor, fé, sonhos, sustentabilidade e desigualdade social.

Ao portal Meionews.com, Alemão explicou que para muitos, o trabalho dos grafiteiros pode parecer ousado ou provocativo demais, sendo visto como amador ou inferior pela sociedade em geral. Mas ele reforça que também é um trabalho nobre, capaz de resgatar vidas, assim como a dele foi resgatada.

“Eu fui um jovem internado devido às drogas e só consegui sair delas através do grafite. Passei de 2013 a 2016 afundado nos entorpecentes”, contou.

RESGATE DAS DROGAS

Nas casas de reabilitação, ele passava o tempo livre pintando, o que despertou sua vontade de conhecer o grafite e a cultura do Hip Hop. Assim que deixou o lugar devidamente recuperado, tirou dos rabiscos o sonhos dar início a um projeto para ajudar outras pessoas a se envolverem com a arte.

Alemão crê na transformação social e no papel da arte como incentivadora dos jovens (Foto: Raíssa Morais)

“A maioria dos jovens da periferia não tem acesso à arte e cultura. Eu, que vim de uma situação difícil, sei o quanto é caro ter acesso a tintas e materiais. Com isso, tive a oportunidade de conhecer boa parte do Brasil participando de encontros e exposições”, afirmou.

Na capital piauiense, seu trabalho beneficente é formalmente solicitado por organizações não governamentais ou secretarias e recebe financiamento para sua realização. Utilizando uma abordagem baseada em apostilas feitas em parceria com órgaos educacioanis, o projeto aborda a história do grafite, do Hip Hop e da cultura periférica, com o objetivo de promover alternativas ao envolvimento com drogas e violência. 

Grafite colore espaços de Teresina (Foto: Raíssa Morais)

Ele já realizou projetos em colaboração com a Coordenadoria Estadual da Juventude e a Fundação Wall Ferraz, levando oficinas a outras cidades e comunidades teresinenses, como na região da Pedra Mole, considerado um dos bairros mais violentos pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí (SSP-PI). Hoje, ele consegue tirar seu sustento por meio da arte e também da força de resgatar pessoas.

“Dedico minha vida ao grafite, que proporciona muita liberdade. As ruas têm uma arte democrática que oferece acesso a muitas pessoas que não têm acesso às artes plásticas, presentes em museus. O grafite me deu essa oportunidade de estar nas ruas, nas praças, mostrando um pouco da minha arte. É uma arte libertadora que ajuda a resgatar muitos jovens, como eu, da criminalidade e das drogas”, declarou. 

IMPULSIONADO PELO GRAFITE 

Felipe de Araújo, de 30 anos, foi um jovem que enfrentava problemas sérios relacionados à criminalidade e ao uso de drogas. Ele encontrou uma nova direção em sua vida há uma década, quando o grafite cruzou seu caminho por meio de uma oficina de arte no Conjunto Pedra Mole, onde teve a oportunidade de conhecer Alemão. 

Felipe de Araújo, de 30 anos, é um frutos do trabalho de Alemão (Foto: Raíssa Morais)

"Foi através de uma oficina de grafite no Conjunto Pedra Mole que conheci o Alemão, e isso mudou tudo, eu me achei na vida. Passei a sonhar, a conviver com as pessoas certas e ter vontade de sair daquela situação”, relatou. Hoje, Felipe está prestes a concluir seu curso de gastronomia e já realizou o sonho de abrir sua própria hamburgueria. Mesmo muito ocupado com seus novos empreendimentos, ele continua fiel à sua paixão pelo grafite e colabora regularmente com Alemão em projetos artísticos.

Gustavo Daniel, de 18 anos, é um jovem surdo que tomou gosto pelo grafite (Foto: Raíssa Morais)

Gustavo Daniel Batista dos Santos, de 18 anos, estuda no terceiro ano do ensino médio no Centro Estadual de Tempo Integral (Ceti) Residencial Pedra Mole. O jovem, que é surdo, contou que a arte o ajuda na inclusão social e na forma de se expressar com os amigos. “Quando o projeto chegou na escola, fiquei muito feliz e pensei no que poderia pintar. Decidi grafitar a palavra 'Dedicação' para incentivar as pessoas a não desistirem de seus sonhos”, disse ao portal Meionews.com.

Gustavo Daniel expressou que se sente muito bem quando está envolvido com a arte (Foto: Raíssa Morais)

Nas oficinas de grafite, jovens encontram um espaço para contar suas histórias e paixões através da arte. "A arte me ajuda com os sentimentos", compartilha Vitória Gabriele Batista, de 16 anos. 

Vitória Gabriele gosta de desenhar e se encantou pelo trabalho de Alemão (Foto: Raíssa Morais)

"Ela me inspira e me permite expressar quem sou, mesmo diante dos desafios." Ketlyn Geysa Costa, de 17 anos, aproveitou a oficina ministrada por Alemão para colorir desenhos em referência a sua grande paixão, a dança. 

Katlyn Geysa, de 17 anos, também participa das oficinas de Alemão (Foto: Raíssa Morais)

Para ela, o grafite permite que eles compartilhem suas histórias, ideias e perspectivas com o mundo ao seu redor. “É uma maneira incrível de expressar minhas paixões e gostos pessoais”, falou. O Centro Estadual de Tempo Integral (Ceti) Residencial Pedra Mole ganhou mais cores e mais vida a partir do grafite feito pelos próprios estudantes, que receberam a instrução de Alemão. 

Clarissa Santos, diretora do Ceti Pedra Mole (Foto: Raíssa Morais)

Clarissa Santos, diretora da escola, afirmou que o engajamento e animação dos jovens foram os aspectos mais marcantes da ação do grafiteiro.

Grafite une arte e transformação social nas periferias de Teresina (Foto: Raíssa Morais)

“Foi de grande importância para nós, porque trabalhou muito a questão da inclusão dos nossos alunos na comunidade escolar. Quando procurei o Alemão para fazer essa parceria, ele foi bastante solícito e isso teve grande relevância para nossa escola. Nossos alunos passaram a mostrar como viam a escola e a se sentirem parte dela. É um projeto lindo e todos gostam muito dele”, falou.

Grafite une arte e transformação social nas periferias de Teresina (Foto: Raíssa Morais)



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