- A Receita Federal registrou aumento de 300% nas apreensões de medicamentos para emagrecimento na fronteira com o Paraguai em 2026.
- Medicamentos como tirzepatida e semaglutida são apreendidos em grandes quantidades, com valor estimado de R$ 19,5 milhões no primeiro semestre.
- Diferença de preço entre Paraguai e Brasil impulsiona a procura por medicamentos ilegalmente importados, muitos sem autorização da Anvisa.
- Transporte irregular dos medicamentos pode comprometer sua conservação e aumentar riscos para o consumidor, além de configurar crime contra a saúde pública.
- Consumo de medicamentos sem registro sanitário cresceu significativamente no Brasil, com aumento de 149,3% nos pedidos online no primeiro semestre de 2026.
A Receita Federal registrou um aumento expressivo nas apreensões de canetas, seringas e frascos com semaglutida e tirzepatida na fronteira entre Brasil e Paraguai, em Foz do Iguaçu, no Paraná. Somente nos primeiros seis meses de 2026, foram apreendidas mais de 76 mil unidades dos medicamentos.
O número representa quase o triplo das 24.994 unidades apreendidas durante todo o ano de 2025. O valor estimado dos produtos recolhidos no primeiro semestre deste ano chega a R$ 19,5 milhões.
A fronteira, especialmente na região da Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este, é tradicionalmente utilizada para a entrada ilegal de diferentes produtos no país. Com o aumento da procura por medicamentos para emagrecimento, as canetas passaram a ocupar espaço entre os itens mais apreendidos.
Diferença de preço impulsiona procura
Segundo a Receita Federal, uma ampola de tirzepatida pode ser encontrada no Paraguai por cerca de R$ 340. No Brasil, o Mounjaro, medicamento à base da substância e com comercialização autorizada pela Anvisa, é encontrado por valores a partir de R$ 1.400.
Além da diferença de preço, produtos vendidos no Paraguai não necessariamente possuem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercialização no Brasil. A entrada irregular desses medicamentos dificulta a fiscalização sobre origem, armazenamento e condições de conservação.
No início de 2025, as apreensões ainda eram pequenas. Em janeiro e fevereiro, por exemplo, o volume não chegou a gerar um registro específico de captura. O cenário começou a mudar em março daquele ano, quando ocorreu a primeira grande apreensão, avaliada em R$ 2.262,45.
Em dezembro de 2025, o valor das apreensões havia aumentado 1.136% em relação ao registrado em março. A maior apreensão daquele ano chegou a R$ 2,79 milhões.
De acordo com Flávio Bernardino de Carvalho, auditor fiscal da Receita Federal, os medicamentos peptídicos para emagrecimento já representam o segundo maior valor em apreensões na 9ª Região Fiscal, que abrange Paraná e Santa Catarina, ficando atrás apenas dos celulares.
Mais de 25 mil unidades apreendidas em junho
O crescimento se intensificou em 2026. Entre janeiro e junho, foram apreendidas 76.112 canetas e ampolas na fronteira, com valor estimado de R$ 19.532.406,07.
O recorde mensal ocorreu em junho, quando 25.828 unidades foram apreendidas. O valor estimado dos produtos recolhidos naquele mês foi de R$ 4.296.662,15.
A fiscalização ocorre principalmente na Ponte da Amizade, por onde circulam diariamente milhares de pessoas e veículos. A Receita também monitora outras formas utilizadas para transportar os medicamentos ilegalmente para o Brasil.
Entre os métodos identificados estão o uso de barcos que atravessam o Rio Paraná e o transporte escondido em veículos. Os produtos já foram encontrados dentro de frascos de shampoo, embalagens de gel de massagem, solados de tênis e espaços vazios em carrocerias.
Transporte pode comprometer conservação
Além de dificultar a fiscalização, as formas utilizadas para esconder os medicamentos podem comprometer a qualidade dos produtos. As canetas que contêm determinadas substâncias precisam ser mantidas em condições adequadas de armazenamento, especialmente em relação à temperatura.
O transporte irregular, sem controle apropriado, pode afetar a conservação dos medicamentos e aumentar os riscos para quem utiliza produtos sem procedência conhecida.
Segundo o auditor fiscal Flávio Bernardino de Carvalho, a entrada dos produtos ocorre por diferentes meios. Ele afirma que a fiscalização encontra desde pessoas que transportam pequenas quantidades até grupos ligados ao crime organizado.
A publicidade dos medicamentos nas redes sociais também preocupa as autoridades. Além da oferta dos produtos, usuários compartilham informações sobre formas de transporte e maneiras de driblar a fiscalização na fronteira.
A Receita defende o reforço das ações de fiscalização e o combate à comercialização de medicamentos que não possuem autorização para serem vendidos no país.
Procura por medicamentos para emagrecer cresce
O aumento das apreensões acompanha a crescente procura por medicamentos associados ao GLP-1 no Brasil. Um levantamento da Serasa Experian apontou crescimento de 149,3% nos pedidos online desses produtos no primeiro semestre de 2026.
Entre janeiro e junho deste ano, foram registradas 1.364.354 solicitações, contra 547.249 no semestre anterior. O valor total movimentado nos pedidos ultrapassou R$ 2,3 bilhões.
Outro levantamento, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva e produzido pelo Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde (Nechs), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), identificou aumento nas buscas por produtos sem registro sanitário no Brasil.
Entre os medicamentos pesquisados estão produtos como TG, Tirzec, Lipoless, Lipoland e retatrutida. As buscas por produtos sem registro sanitário cresceram 6,29% entre maio de 2025 e maio de 2026.
A avaliação da Receita é que uma eventual quebra da patente da tirzepatida poderá alterar esse cenário. Segundo o auditor, a experiência com a semaglutida indica que a ampliação da oferta regular no mercado brasileiro pode reduzir a procura por produtos trazidos ilegalmente do Paraguai.
Contrabando de medicamentos é crime
A entrada no Brasil de medicamentos sem autorização sanitária pode configurar crime contra a saúde pública. O artigo 273 do Código Penal prevê pena de reclusão de 10 a 15 anos, além de multa, para determinadas condutas relacionadas à falsificação, adulteração ou comercialização irregular de medicamentos.
Além da questão criminal, autoridades alertam para os riscos associados ao consumo de produtos sem procedência e sem garantia de armazenamento adequado. A ausência de autorização sanitária também impede que o consumidor tenha as mesmas garantias de controle de qualidade existentes para medicamentos regularizados no país.