A morte da soldada da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ganhou novos desdobramentos nesta semana com a apresentação de áudios, mensagens e documentos que, segundo a família, reforçam a hipótese de um relacionamento abusivo e levantam dúvidas sobre a versão inicial de suicídio.
Encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, na região do Brás, em São Paulo, Gisele é o centro de uma investigação que agora reúne indícios sobre sua vida pessoal, o histórico do oficial e a dinâmica do caso. Até o momento, a defesa do Tenente-Coronel não respondeu o pedido de posicionamento.
NOVOS ELEMENTOS: ÁUDIO E MENSAGENS
Durante entrevista coletiva nesta segunda-feira (16), o advogado da família, José Miguel Silva, apresentou um áudio enviado por Gisele ao pai ainda em 2025. Na gravação, a policial pede ajuda para encontrar uma casa próxima à residência dos pais, indicando a intenção de deixar o imóvel onde vivia com o marido. Ouça o áudio:
No trecho, ela demonstra preocupação com a rotina de trabalho e com a filha, sugerindo que buscava uma mudança que facilitasse sua vida — o que, segundo a defesa, reforça o desejo de se afastar do relacionamento. Além disso, mensagens atribuídas à policial revelariam medo do comportamento do marido. Em uma delas, enviada a uma amiga, Gisele teria dito:
“Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata.”, diz a troca de mensagens
Para a família, os conteúdos mostram que a soldada vivia sob tensão e temia pela própria segurança. VEJA O PRINT:
HISTÓRICO DE DENÚNCIAS E ACUSAÇÕES
Outro ponto que passou a ganhar destaque é o histórico do tenente-coronel. Segundo o advogado, existem boletins de ocorrência e decisões judiciais que apontam episódios anteriores de ameaças, perseguições e assédio envolvendo o oficial. Entre os registros citados:
2009 e 2010: uma ex-companheira teria denunciado perseguição, vigilância constante e ameaças de morte, além de solicitar medida protetiva;
2022: uma mulher relatou ameaças dentro do próprio apartamento, mencionando a presença do então major;
Para a defesa, os casos indicam um “padrão de comportamento ameaçador e perseguidor”.
DENÚNCIAS DE ASSÉDIO MORAL DENTRO DA CORPORAÇÃO
Também veio à tona uma decisão judicial de outubro de 2024 que reconheceu a prática de assédio moral por parte de Geraldo Neto, quando ainda era major da PM.
Na ação, movida por uma policial subordinada, a Justiça concluiu que o oficial utilizava sua posição hierárquica para constranger e perseguir a agente. Entre os episódios descritos estão:
acusações não comprovadas de irregularidades administrativas;
cobranças excessivas e direcionadas;
humilhações públicas;
ameaças de transferência como punição.
O Estado de São Paulo foi condenado a pagar indenização por danos morais à policial. A decisão aponta que as condutas tinham como efeito atingir a dignidade, autoestima e autonomia da vítima, além de prejudicar o ambiente de trabalho.
FAMÍLIA DA VÍTIMA RELATA RELAÇÃO ABUSIVA
Em depoimento, a mãe de Gisele afirmou que a filha vivia um relacionamento “extremamente conturbado” e marcado por controle e restrições. Segundo ela, o oficial impunha regras sobre comportamento e aparência, proibindo o uso de itens como batom, salto alto e perfume, além de exigir rigor com tarefas domésticas. A mãe também relatou que, ao mencionar a intenção de se separar, Gisele teria recebido do marido uma foto em que ele aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.
NOVOS LAUDOS
Os laudos da Polícia Técnico-Científica já descartaram que Gisele estivesse grávida ou sob efeito de substâncias no momento da morte. No entanto, a perícia identificou manchas de sangue em outros cômodos do apartamento, o que ainda é analisado.
O inquérito reúne cerca de 70 páginas de exames, mas aguarda resultados complementares do Instituto Médico Legal (IML) e do Instituto de Criminalística (IC) para esclarecer a dinâmica do disparo.
O QUE DIZ O TENENTE-CORONEL?
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto voltou a se pronunciar publicamente sobre a morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, e fez duras críticas à defesa da família da vítima. Em entrevista exibida nesta segunda-feira (16) no programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, o oficial negou qualquer envolvimento no caso, reafirmou a versão de suicídio e classificou como falsas as novas provas apresentadas.
Durante a entrevista ao jornalista Joel Datena, o tenente-coronel direcionou críticas diretas ao advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior. Segundo o oficial, as declarações feitas pela defesa seriam “uma dezena de mentiras”.
Ele chegou a afirmar que o advogado deveria passar por uma avaliação psiquiátrica e ironizou a condução do caso: “Parece um cineasta”, disse, sugerindo que a narrativa estaria sendo construída de forma midiática.
As declarações ampliam o embate público entre as duas versões: de um lado, a família que levanta suspeitas de feminicídio; do outro, o marido que sustenta a hipótese de suicídio.
Sobre os áudios atribuídos a Gisele, divulgados pela defesa da família, o tenente-coronel, no entanto, nega a autenticidade do material e afirma que os arquivos podem ter sido manipulados. Segundo ele, os áudios seriam falsos e possivelmente produzidos com uso de inteligência artificial. A autenticidade do conteúdo ainda não foi confirmada oficialmente pelas autoridades e deve ser alvo de perícia.
Ao se defender das suspeitas, Geraldo Neto foi enfático ao negar qualquer participação na morte da esposa.
“Não sou o assassino. Tenho a consciência tranquila, com Deus, com a Gisele.”
Ele afirmou que nunca agrediu a companheira e que jamais atentaria contra a vida dela. Segundo o coronel, ele foi testemunha de um suicídio.
De acordo com sua versão, o disparo ocorreu após uma discussão entre o casal, enquanto ele estava no banho. Ele relata ter ouvido o barulho, encontrado Gisele ferida e acionado o socorro. A Coluna do Padula pediu um posicionamento para a defesa do Tenente-Coronel, mas até o fechamento desta matéria, não tivemos resposta.