A análise de imagens de câmeras corporais de policiais militares que atenderam a ocorrência da morte da soldado da PM Gisele Alves Santana, em São Paulo, trouxe novos elementos que foram determinantes para a reviravolta na investigação. O material, obtido e analisado pela Coluna do Padula, revela inconsistências no relato do principal envolvido e comportamentos considerados atípicos no momento do atendimento.
Logo nos primeiros minutos da ocorrência, o então companheiro da vítima evita responder diretamente sobre o que havia acontecido no interior do apartamento. Em vez disso, passa a detalhar despesas domésticas e questões financeiras do relacionamento — um comportamento que chamou a atenção dos investigadores pela desconexão com a gravidade da situação.
Na sequência, ele afirma que o relacionamento estava desgastado e apresenta a versão de suicídio. No entanto, segundo o inquérito, a forma como o relato foi feito — sem sinais evidentes de abalo emocional — foi descrita como de “extrema frieza”, reforçando dúvidas sobre a narrativa inicial.
Ten. Cel Neto: - “A gente ia se separar. Falei para ela que ia separar, entrei no banho, no banheiro aqui e ela entrou no outro; daqui a pouco eu escutei o barulho e eu saí, achei que ela tivesse batido a porta com força porque ela estava nervosa, mas ela estava lá caída [...] Eu pago tudo… aluguel, condomínio, contas… dá mais ou menos uns R$ 6 mil”, disse.
Outro ponto considerado relevante pelas autoridades é o momento em que os policiais informam que a vítima ainda apresentava sinais vitais após o disparo. Diante disso, o homem reage com uma fala de caráter técnico sobre o efeito de um tiro na cabeça, mencionando sua experiência como instrutor de tiro. Para os investigadores, a declaração destoou do contexto de socorro e passou a integrar o conjunto de elementos analisados.
Ten. Cel Neto: - Eu sou instrutor de tiro… tiro na cabeça de P.40 é complicado. Senhor Jesus, por que ela fez isso?
As imagens também registram um episódio que levantou suspeitas ainda no local: a insistência do homem em tomar banho dentro do imóvel, mesmo após ser orientado pelos policiais a apenas se vestir para seguir até a delegacia. A atitude gerou desconfiança imediata entre os agentes, que passaram a considerar a possibilidade de comprometimento de provas.
Durante a abordagem, ele chega a se exaltar e reforçar sua experiência na corporação, antes de se trancar no banheiro por alguns minutos. A cena foi registrada e posteriormente incluída no relatório policial como um comportamento potencialmente relevante para a investigação.
Neto: “Irmão, eu entrei no banho, liguei o chuveiro, eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta. Peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho. Eu nem fiz a barba ainda, fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro irmão [...] Eu não estou bem, eu vou tomar um banho. Não vou fugir daqui”, disse.
Em outros momentos, as imagens mostram uma mudança de postura: o homem aparece chorando e descrevendo a vítima de forma elogiosa, destacando suas qualidades pessoais. Ainda assim, mantém a versão de que a morte teria sido provocada pela própria vítima, mesmo após relatar o término recente do relacionamento. VEJA O VÍDEO NA ÍNTEGRA:
A Coluna do Padula apurou que o conjunto dessas imagens, aliado a laudos periciais e depoimentos, foi decisivo para que a Polícia Civil descartasse a hipótese inicial de suicídio. A investigação passou, então, a tratar o caso como feminicídio.
Conclusão da Polícia Civil
Para a Polícia Civil, o conjunto dessas falas — captadas em tempo real — tem peso decisivo na investigação. O relatório aponta que:
As contradições surgem ainda nos primeiros minutos;
O comportamento do investigado já gerava desconfiança imediata;
Houve risco concreto de destruição de provas;
A versão apresentada não é compatível com os elementos objetivos da cena.
Segundo os investigadores, os vídeos não apenas confirmam os depoimentos colhidos ao longo do inquérito, como também evidenciam, de forma direta, incoerências e atitudes suspeitas do tenente-coronel.
A conclusão é que as imagens das câmeras corporais reforçam a tese de que a dinâmica do crime não corresponde à narrativa apresentada pelo investigado — e que os indícios de irregularidade estavam visíveis desde os primeiros momentos da ocorrência.