A Coluna do Padula teve acesso a análise pericial dos celulares no caso da soldado Gisele Alves Santana que revela uma série de elementos que, segundo a Polícia Civil, desmontam a versão inicial apresentada pelo marido e reforçam a hipótese de feminicídio. Gisele foi encontrada baleada na cabeça dentro do apartamento onde morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Em um primeiro momento, o tenente-coronel Geraldo Neto afirmou que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão, mas essa versão foi descartada com o avanço das investigações e a conclusão dos laudos técnicos.
Um dos pontos mais relevantes apontados pela perícia é o manuseio do celular da vítima após o disparo. De acordo com o relato de uma vizinha, um estampido único foi ouvido por volta das 7h28. No entanto, os registros técnicos indicam que o aparelho de Gisele foi desbloqueado em horários posteriores, como às 7h47, 7h49 e 7h58. No entanto, o tenente-coronel já havia ligado para o 190 antes disso, às 7h54. Para os investigadores, esses dados indicam que o celular foi utilizado depois do tiro, o que levanta suspeitas de interferência na cena do crime.
A análise do celular do tenente-coronel também revelou comportamentos considerados atípicos. O relatório aponta que a primeira tentativa de ligação para o 190 não foi concluída. Na sequência, ele entra em contato com seu superior e, somente depois dessa conversa, volta a acionar o serviço de emergência, desta vez permanecendo em ligação. Para a polícia, a ordem das chamadas pode indicar uma tentativa de buscar orientação antes de comunicar oficialmente o ocorrido.
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi a linha do tempo registrada no aparelho do investigado. Embora o celular tenha sido desbloqueado por volta das 5h04, os dados de GPS mostram atividade desde antes das 4h da manhã, o que pode indicar movimentações anteriores ao horário declarado.
A perícia também identificou inconsistências importantes nas mensagens trocadas entre o casal. No celular do tenente-coronel, não havia registros de conversas com Gisele no dia anterior à morte, 17 de fevereiro. No entanto, os dados recuperados do aparelho da vítima mostram que os dois trocaram mensagens ao longo do dia, incluindo discussões sobre separação. Para a investigação, essas mensagens foram apagadas com o objetivo de sustentar uma versão diferente sobre o relacionamento.
Os diálogos recuperados revelam um cenário de desgaste e ruptura. Em uma das mensagens, Gisele afirma que o marido “confundiu carinho com autoridade, amor com obediência”, e diz que tem dignidade para seguir sua vida. Em outro trecho, ela afirma que ele poderia entrar com o pedido de divórcio ainda naquela semana. Em mensagens analisadas pela perícia, também há referências a conflitos anteriores, acusações de traição e até o reconhecimento de episódios de agressão dentro do relacionamento.
O conteúdo das conversas indica que o casamento enfrentava uma crise profunda, com discussões frequentes e perda de confiança. Há ainda registros de que o tenente-coronel possuía acesso às redes sociais da vítima, como Instagram e Facebook, o que também passou a ser considerado no contexto da investigação.
Diante do conjunto de evidências — incluindo a cronologia dos fatos, o uso do celular após o disparo, a exclusão de mensagens e o histórico de conflitos — a Polícia Civil concluiu que a versão de suicídio não se sustenta. Geraldo Neto foi preso preventivamente no dia 18 de março e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.
A investigação segue em andamento, mas, para os responsáveis pelo caso, os elementos já reunidos apontam para uma tentativa de encobrir o crime e reconstruir artificialmente a narrativa dos acontecimentos.
O QUE DIZ A DEFESA DO TENENTE-CORONEL?
Em conversa com a Coluna do Padula, o advogado de defesa de Geraldo Neto, afirmou que a equipe contratou um especialista para revisar os laudos periciais:
“No que pertine à perícia do celular, a defesa contratou um expert para analisar todos os laudos. Então, não é um momento de nós anteciparmos qualquer análise técnica a respeito dessa situação", disse o Eugênio Malavasi".