A investigação sobre a morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada morta dentro do apartamento onde morava com o marido, no bairro do Brás, na região central de São Paulo, teve novos desdobramentos após uma reunião entre investigadores nesta quarta-feira (12).
Representantes da Corregedoria da Polícia Militar e delegados responsáveis pelo caso se reuniram para discutir o avanço das apurações. No encontro, ficou definido que as equipes irão aguardar os resultados dos laudos periciais realizados após a exumação do corpo da policial antes de adotar novas medidas na investigação.
Segundo os investigadores, somente após a conclusão e análise desses exames será decidido se haverá pedido de prisão contra o marido da vítima, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos.
Os novos exames foram realizados após a exumação do corpo no Instituto Médico-Legal (IML) Central, onde peritos fizeram análises complementares, incluindo uma tomografia, para esclarecer as circunstâncias da morte.
A expectativa dos investigadores é que os resultados dos laudos tragam elementos técnicos capazes de orientar os próximos passos do inquérito e esclarecer definitivamente o que ocorreu no interior do apartamento do casal.
Resumo do caso
O laudo necroscópico realizado após a exumação do corpo da policial militar Gisele Alves Santana apontou lesões no pescoço e no rosto, com sinais de pressão digital e arranhões compatíveis com marcas de unhas, indicando possível esganadura ou agressão antes do disparo. Os peritos avaliam que a vítima pode ter desmaiado antes de ser baleada.
A investigação também analisa imagens de câmeras de segurança, áudios e depoimentos de testemunhas. Uma vizinha relatou ter ouvido um disparo por volta das 7h28, cerca de 30 minutos antes da ligação do marido da vítima ao 190, na qual ele afirmou que a esposa havia se suicidado.
Registros mostram o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto no corredor do prédio falando ao telefone logo após o disparo e acionando socorro. Equipes do Corpo de Bombeiros chegaram ao local às 8h13, e Gisele foi levada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu. VEJA A MATÉRIA EXIBIDA PELO PROGRAMA 'BOM DIA MEIO NORTE", COM HELDER FELIPE:
A investigação também apura a presença de outras pessoas no apartamento após o crime, incluindo policiais que teriam ido ao local para limpeza e a chegada de um desembargador amigo do coronel, que entrou no imóvel com ele, mesmo após orientação para preservar a cena.
Depoimentos de policiais e de um bombeiro indicam possíveis inconsistências na versão apresentada pelo oficial, como o fato de ele afirmar que estava no banho quando ouviu o tiro, embora testemunhas tenham dito que ele aparentava estar seco. O bombeiro que atendeu a ocorrência também considerou incomum a posição da vítima e da arma, além de não ter encontrado o cartucho do disparo no local.
ENTREVISTA COM PERITO E ADVOGADO DA FAMÍLIA
O advogado da família da policial militar Gisele Alves Santana, José Miguel Silva, afirmou que o tenente-coronel Geraldo Neto, marido da vítima, não conseguiu explicar pontos considerados importantes da investigação sobre a morte da PM. A fala aconteceu durante o programa “Jornal da Tarde Piauí”, da Rádio Jornal FM, com Daiton Meireles e Lucas Padula.
Em entrevista, o advogado criticou a versão apresentada pelo oficial em falas feitas na Record TV e afirmou que os relatos não se sustentam diante das provas reunidas até agora. Segundo ele, o tenente-coronel também adotou uma postura agressiva ao acusar a imprensa. VEJA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:
Outro ponto destacado pela defesa é que o oficial teria dito não se lembrar de informações relevantes para o esclarecimento do caso. Um dos exemplos citados é o desaparecimento do cartucho da arma usada no disparo, elemento que poderia ajudar a esclarecer a dinâmica da morte.
“O Tenente-coronel resolveu dar uma entrevista para uma emissora. Deu sua versão e negou os fatos. Porém, a versão dele não se sustenta. Hoje tomou uma postura agressiva, ao acusar a imprensa. Ele não soube explicar certas coisas. Ele se recorda de certos pontos do evento, mas o que não interessa a ele, ou que pesa contra ele, ele diz que não se recorda. Não se recorda como o único cartucho desaparece do local do crime, e esse cartucho poderia trazer mais luz para os fatos”, disse José Miguel, advogado da família de Gisele.
Depoimentos de bombeiros que atenderam a ocorrência também levantaram dúvidas. O tenente-coronel afirmou que estava tomando banho quando ouviu o disparo, mas um sargento do Corpo de Bombeiros relatou que o encontrou de bermuda, sem camisa e completamente seco, além de não haver sinais de água no apartamento.
A defesa da família também questiona divergências sobre o horário do tiro. Uma testemunha disse ter ouvido o disparo em um horário que, segundo o advogado, coincide com o relato dos socorristas, mas que não foi explicado pelo oficial.
“Ele também diz que a testemunha se equivocou com horário em que ela escutou o disparo, porém esse horário bate com a versão dos socorristas, ou seja, a versão dos socorristas está em harmonia com o horário que a testemunha disse, e isso ele não responde”, completa.
Outro ponto levantado envolve a posição da arma na mão da vítima. De acordo com José Miguel, a fotografia que registra a cena foi feita por um socorrista e mostra a arma encaixada na mão da policial, algo que, segundo ele, seria anatomicamente incomum caso se tratasse de suicídio.
Por fim, o advogado afirmou considerar estranho ainda não ter sido decretada a prisão preventiva, já que, na avaliação da família, o próprio inquérito apresentaria elementos que poderiam justificar a medida.
“Essa foto não foi tirada pela perícia, e sim pelo socorrista. A arma está encaixada nas mãos dela. Anatomicamente, a mulher tem a mão menor que a de um homem, se ela tivesse atentado contra sua vida, esta arma com certeza não estaria encaixada na mão. O processo ontem foi decretado em segredo de justiça, temos acesso limitado em função de medidas cautelares. É estranho ainda não ter sido decretada uma prisão preventiva, porque embora seja uma exceção da regra, no próprio inquérito há elementos para essa medida. A gente segue aguardando ansiosamente essa medida”, finaliza o advogado.
A defesa do tenente-coronel afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado até o momento e que tem colaborado com as autoridades. O caso, inicialmente tratado como suicídio, segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da Polícia Militar.