O manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, que aparece em imagens de câmeras de segurança manuseando produtos químicos que teriam causado a morte da jovem Juliana Faustino Bessetto, de 27 anos, se apresentou no 42º Distrito Policial na manhã desta terça-feira (10). Ele presta depoimento para esclarecer os fatos e colaborar com as investigações.
Segundo o delegado responsável pelo caso, Alexandre Bento, o manobrista afirmou que recebeu ordens por meio do WhatsApp para realizar a manipulação dos produtos químicos, apesar de não possuir qualificação técnica para a manutenção da piscina.
“Ele [Severino] informou que recebeu a ordem para manusear os produtos por meio do WhatsApp. O que queremos saber agora é quem enviou essa mensagem e quem é o responsável. A pessoa que enviou apagou a mensagem do celular no domingo, um dia após o ocorrido”, afirmou o delegado.
Ainda de acordo com a autoridade policial, Severino trabalha no local há pelo menos três anos, atuando inicialmente como manobrista, mas também exercendo funções de serviços gerais, entre elas o cuidado da piscina. Em seu primeiro depoimento, ele declarou que realizava a mistura dos produtos, mas não os aplicava diretamente na água. Segundo ele, essa tarefa ficava sob responsabilidade de um professor, seguindo orientações repassadas pelos gestores da academia.
As investigações apontam que, no dia 13 de janeiro, os produtos utilizados no tratamento da piscina foram substituídos por outros mais baratos, porém mais potentes. A polícia apura se a intoxicação ocorreu em razão da incompatibilidade química entre as substâncias ou pela concentração excessiva da mistura.
“Vamos apreender o celular e tentar recuperar essas mensagens para identificar quem foi o responsável por encaminhar essas orientações”, completou o delegado.
ONDE ESTÃO OS RESPONSÁVEIS DA ACADEMIA?
A polícia ainda aguarda a apresentação dos proprietários da academia, que até o momento não foram ouvidos. Segundo o delegado do caso, um grupo de advogados chegou a ser formado para representar os donos do estabelecimento, mas foi afastado na manhã de segunda-feira (9). Horas depois, os defensores abandonaram o caso. Com isso, a polícia segue aguardando a apresentação dos investigados e de seus representantes legais.
VÍTIMAS INTERNADAS
Uma mulher identificada como Letícia Helena Oliveira, de 29 anos, foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Luiz Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, após participar da mesma aula de natação na academia onde a professora Juliana Bessetto, de 27 anos, morreu depois de passar mal. O caso ocorreu no último sábado (7).
De acordo com o boletim de ocorrência registrado pela vítima pela internet, Letícia participou da aula acompanhada da filha. Após retornar para casa, passou a apresentar sintomas como náuseas, vômitos e diarreia. O quadro se agravou no domingo (8), quando ela procurou atendimento médico e precisou ser internada na UTI.
Com esse caso, sobe para quatro o número de pessoas internadas em decorrência da participação na aula de natação realizada na academia C4 Gym. Três vítimas permanecem internadas em estado grave na UTI, enquanto uma está em leito comum.
Entre os internados em estado grave está Vinicius Oliveira, marido da professora Juliana Bessetto. Ele também era aluno da academia e deu entrada na unidade de saúde com quadro de insuficiência respiratória. Segundo o boletim médico, o paciente está em estado grave, porém clinicamente estável. Juliana morreu após sofrer uma parada cardíaca.
CÂMERA REGISTROU O MOMENTO EM QUE JULIANA PASSA MAL
Imagens de uma câmera de segurança mostram o momento em que Juliana Faustino Bessetto passa mal logo após deixar a aula de natação na academia. A professora morreu horas depois, após dar entrada no Hospital Santa Helena, em Santo André.
No vídeo, Juliana aparece usando trajes de banho no saguão de entrada do local. As imagens indicam que ela demonstra dificuldade para respirar, gesticula e aparenta forte mal-estar. Em seguida, ela se senta e passa a receber auxílio de pessoas que estavam na academia.
Com o passar dos minutos, outros alunos, também vestindo roupas de banho, surgem no local, o que indica que participaram da mesma aula. Após mais de quatro minutos, Juliana é erguida com a ajuda de terceiros e retirada da academia para receber atendimento médico.
CÂMERAS TAMBÉM MOSTRAM MANOBRISTA MANUSEANDO PRODUTOS
A Coluna do Padula teve acesso a imagens de câmeras de segurança que mostram um homem realizando a mistura de substâncias químicas dentro do ambiente da piscina, enquanto alunos ainda permaneciam na água. Uma jovem morreu e outras três pessoas foram internadas. A principal suspeita é de que as vítimas tenham sido intoxicadas por gases liberados após a manipulação inadequada dos produtos químicos utilizados no tratamento da piscina.
Nas imagens, o homem aparece misturando as substâncias nos fundos da área da piscina e, em seguida, deixa um balde próximo aos alunos que ainda estavam na água. Em outro registro, feito antes da aula, o suspeito surge com o rosto coberto por um pano escuro, aparentemente para evitar a inalação dos gases após perceber uma reação química.
Segundo a investigação, Juliana participava da aula acompanhada do marido quando ambos perceberam que a água apresentava odor e gosto fora do normal. Durante a atividade, alunos relataram ardência nos olhos, nariz e vias respiratórias, além de náuseas e episódios de vômito. Após o término da aula, o casal passou mal, comunicou o professor responsável e buscou atendimento médico.
Juliana foi levada a um hospital em Santo André, onde seu estado de saúde se agravou rapidamente, evoluindo para uma parada cardíaca. Ela não resistiu. O velório e o sepultamento ocorreram nesta segunda-feira (9), no Cemitério da Quarta Parada, na capital paulista.
O QUE DIZ A POLÍCIA?
Segundo o delegado Alexandre Bento, a principal linha de investigação aponta que a mistura dos produtos foi preparada em um balde de aproximadamente 20 litros e deixada ao lado da piscina enquanto a aula ainda estava em andamento. Como o ambiente é fechado e possui pouca ventilação, os gases teriam se concentrado no local, causando a intoxicação dos frequentadores.
No momento do ocorrido, havia nove alunos na piscina. Ao todo, cinco pessoas foram consideradas vítimas. Um adolescente de 14 anos permanece internado em estado grave, com comprometimento pulmonar e uso de aparelhos respiratórios. O marido da professora também segue internado na UTI. Outras duas pessoas já receberam alta médica.
Inicialmente, a polícia informou que o homem responsável pela manipulação dos produtos ainda não havia sido localizado e era investigado por possível responsabilidade no episódio. A substância utilizada continha cloro misturado a outro produto químico ainda não identificado.
Durante coletiva de imprensa, a Polícia Civil destacou que o local não possuía condições adequadas de segurança. A academia funciona há vários anos no bairro, mas a atual administração está à frente do espaço há cerca de dois anos. Conforme apurado, o estabelecimento não possuía Auto de Licença de Funcionamento, apresentava instalações elétricas precárias e falhas estruturais.
A Subprefeitura de Vila Prudente informou que a academia foi interditada preventivamente por irregularidades documentais e condições inadequadas de segurança. Para a realização da perícia técnica, equipes precisaram arrombar o imóvel e coletar amostras da água da piscina.
Em nota, a direção da academia lamentou o ocorrido, afirmou que prestou atendimento imediato aos envolvidos e declarou que está colaborando com as investigações. O caso segue sob apuração para esclarecer responsabilidades criminais e administrativas.