- Proprietário da Voepass admitiu conhecimento de cultura de omissão em registro de falhas técnicas.
- PF aponta omissão deliberada de registros de manutenção como fator contribuinte para o desastre.
- Felício Filho e 15 profissionais indiciados por atentado contra a segurança do transporte aéreo.
- Empresário reconheceu que aeronave estava em condições inadequadas no momento do acidente.
- PF destacou que Felício tinha formação como piloto e conhecimento sobre vulnerabilidade do modelo ATR-72.
Em depoimento à Polícia Federal, o proprietário e presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu ter conhecimento de uma “cultura de omissão” no registro de falhas técnicas dentro da companhia aérea. A empresa passou a ser investigada após a queda do voo 2283, em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024.
Segundo o empresário, diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também o alertaram pessoalmente, ao longo dos anos, sobre a conduta de pilotos que evitavam registrar problemas nos diários de bordo para impedir que as aeronaves fossem retiradas de operação.
“[Felício] admitiu ter ciência da cultura de omissão de reportes de panes, revelando inclusive que diretores da Anac o alertaram pessoalmente sobre esse padrão de conduta dos pilotos ao longo dos anos”, registrou a PF no relatório que encerrou as investigações.
PF aponta omissão de falhas
Para a Polícia Federal, a omissão deliberada de registros de manutenção foi um dos elementos que contribuíram para o desastre. Segundo o inquérito, a disponibilidade das aeronaves teria sido priorizada mesmo diante de problemas técnicos, entre eles falhas no sistema de degelo.
Felício Filho e outros 15 profissionais foram indiciados pela PF por atentado contra a segurança do transporte aéreo, com agravante relacionado à morte das 62 pessoas.
Entre os demais indiciados estão diretores das áreas de operações, manutenção e segurança, além de mecânicos e despachantes operacionais.
O crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo está previsto no artigo 261 do Código Penal. A legislação prevê pena de dois a cinco anos de prisão para quem expõe aeronave a perigo ou dificulta ou impede a navegação aérea. Se houver queda ou destruição da aeronave, a pena passa para quatro a 12 anos. Em caso de morte, a punição pode ser aplicada em dobro.
A reportagem procurou a defesa de José Luiz Felício Filho e dos demais indiciados, mas não obteve posicionamento até a última atualização.
‘Aeronave não deveria estar naquela condição’
Além de admitir que tinha conhecimento da cultura de omissão de falhas, Felício Filho reconheceu, durante depoimento prestado em 4 de agosto de 2026, que havia problemas com a aeronave envolvida no acidente.
Segundo o empresário, o avião não deveria ter sido utilizado naquelas condições.
“A aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota”, afirmou.
No dia do acidente, a aeronave PS-VPB decolou com falhas conhecidas no sistema de degelo e tinha como destino uma região com previsão de formação de gelo severo.
Dono da companhia era informado pela Anac
Em seu depoimento, Felício Filho também tentou separar a atuação da alta administração das decisões tomadas no núcleo operacional. Ele afirmou que a diretoria de segurança operacional, comandada por David Faria, atuava de forma “apartada” das decisões cotidianas dos gerentes do Centro de Controle Operacional (CCO) e do Centro de Controle de Manutenção (MCC).
A PF, porém, destacou que Felício Filho tinha formação como piloto e, portanto, conhecimento técnico sobre a vulnerabilidade do modelo ATR-72 em condições de formação de gelo.
Segundo os investigadores, ele também era o destinatário formal das notificações de irregularidades encaminhadas pela Anac.
As conclusões fazem parte do inquérito da Polícia Federal sobre as circunstâncias que antecederam a queda do voo 2283, que deixou 62 mortos em Vinhedo.