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Jogadores são citados em esquema de venda de licenças falsas de técnico por até R$ 100 mil

Reportagem do UOL aponta Alejandro Mancuso como responsável por oferecer diplomas sem a formação exigida

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  • Jornalista Joanna de Assis revela esquema de venda de licenças de treinador da ATFA por ex-jogador Alejandro Mancuso.
  • Mancuso oferecia licenças da ATFA por até R$ 100 mil, sem exigir formação oficial, como alternativa para jogadores que queriam ser treinadores.
  • Ex-jogadores como Felipe Melo e Paulinho admitiram ter comprado licenças, mas não as utilizaram, após desconfiança sobre sua validade.
  • ATFA nega vínculo com Mancuso e afirma que a investigação judicial argentina arquivou o caso por inexistência de crime.
  • Documentos apresentados por Mancuso apresentavam inconsistências, levantando dúvidas sobre sua autenticidade e legalidade.
Thiago Silva mostra licença Pro da ATFA que teria sido obtida através do esquema de Mancuso | Foto: Reprodução/Thiago Silva
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Uma reportagem da jornalista Joanna de Assis, publicada pelo UOL nesta quarta-feira (7), revelou um esquema de venda de licenças de treinador de futebol atribuídas à Associação de Técnicos de Futebol da Argentina (ATFA). Segundo a apuração, o ex-jogador argentino Alejandro Mancuso oferecia os documentos por até R$ 100 mil, sem exigir que os interessados cumprissem a formação oficial da entidade.

Entre os jogadores e ex-jogadores citados na reportagem estão Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic e Paulinho.

Mancuso oferecia licenças por até R$ 100 mil

Segundo a reportagem, Mancuso oferecia quatro licenças da ATFA, (PRO) de nível internacional; (A), profissional; e (B) e (C), voltadas às categorias de base, em um prazo de até dez dias.

A proposta era apresentada como uma alternativa para jogadores e ex-jogadores que pretendiam iniciar a carreira como treinadores sem passar pelo processo tradicional de formação.

De acordo com o UOL, Mancuso cobrava R$ 100 mil pela obtenção dos documentos.

Ex-jogador dizia ter ligação com a ATFA

Nas conversas obtidas pela reportagem, Mancuso se apresentava como “diretor internacional da ATFA” e afirmava ter contato com o presidente e o departamento jurídico da entidade.

A ATFA, porém, nega qualquer vínculo com o ex-jogador.

À reportagem, Mancuso também negou fazer parte da instituição.

“Muitos brasileiros me ligam. Por quê? Porque eu sou um cara muito conhecido no Brasil, sabe? E eles me perguntam como é que a gente faz, como é que dá um jeito. Eu passo o contato da federação para que eles liguem direto. Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação”, afirmou.

Denúncia surgiu em 2024

Segundo o UOL, a primeira denúncia que deu origem à apuração ocorreu em maio de 2024, quando um ex-jogador que não quis se identificar recebeu uma mensagem de Mancuso oferecendo o serviço.

Em áudios enviados ao ex-jogador, o argentino afirmava que Salvador Pasini, diretor-geral da ATFA, teria conhecimento do procedimento e assinaria os diplomas.

Em uma das gravações, Mancuso afirma:

“Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou.”

Em outro trecho, questiona:

“São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”

Segundo a reportagem, a formação oficial da ATFA pode levar cerca de três anos, com progressão da licença C até a PRO. O procedimento oferecido por Mancuso, por outro lado, não seguiria essa trajetória.

Em outra mensagem, ele orientava os interessados sobre o histórico de formação que deveria constar nos registros:

“Na federação fica que você fez três anos de curso online. 2021, 2022, 2023. É isso aí que você tem que falar para todo mundo.”

Alejandro Mancuso e Felipe Melo | Foto: Reprodução

Felipe Melo desconfiou das licenças

O ex-jogador Felipe Melo, que atuou pelo Palmeiras, aparece entre os nomes citados na reportagem como cliente de Mancuso.

Segundo o UOL, a licença de Felipe Melo foi suspensa depois que ele não conseguiu cumprir as aulas presenciais e acabou sendo analisada durante uma investigação realizada na Argentina em 2025.

O ex-jogador afirmou que começou a desconfiar da situação quando Mancuso não marcava as aulas presenciais que ele precisava realizar.

“Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: ‘Isso aqui tá errado’.”

Felipe Melo disse ainda que retirou das redes sociais as referências à ATFA e pediu o dinheiro de volta.

Paulinho admite ter comprado facilidade

Outro jogador citado na reportagem é Paulinho. Ao UOL, ele afirmou que acreditou na explicação apresentada por Mancuso de que a ATFA poderia reconhecer a trajetória profissional dos jogadores para a emissão das licenças.

Segundo Paulinho, Mancuso afirmou que seria necessário apenas realizar um procedimento online e que os documentos seriam enviados posteriormente.

“Ele (Mancuso) dizia que tinha uma forma de arranjar as licenças argentinas. Ele garantiu que só era necessário um processo online e, em pouco tempo, enviaria os documentos.”

Paulinho afirmou que chegou a preencher documentos enviados por Mancuso e recebeu os certificados pelo correio. Segundo ele, porém, nunca utilizou as licenças.

“Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei.”

Ainda de acordo com a reportagem, Alex de Souza, Luiz Gustavo, Roberto Carlos, Petkovic, Roberto Assis e Thiago Silva também afirmaram que não tinham conhecimento de eventual ilegalidade no procedimento e que não utilizaram as licenças.

Documentos apresentavam inconsistências

A reportagem afirma que, ao comparar documentos enviados por Mancuso com diplomas originais, foram encontradas inconsistências e erros.

Uma das fontes ouvidas pelo UOL, que teve contato com o esquema, afirmou que havia uma percepção entre jogadores de que a facilidade oferecida poderia gerar problemas.

“Parecia algo fácil demais para ser verdade, e eu vi que virou um papo de vestiário. Inúmeros jogadores compraram. Isso me levou a pensar que não daria certo, mas eu jamais desconfiei da possibilidade de ser um documento falso.”

ATFA nega vínculo com Mancuso

Em nota enviada à reportagem, a ATFA afirmou que Mancuso não integra a diretoria da entidade, não ocupa cargo de autoridade, não possui vínculo contratual e não tem autorização para representá-la.

“A ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade.”

A instituição também afirmou que qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação feito por Mancuso em nome da ATFA seria alheio à entidade.

Justiça argentina arquivou investigação

Segundo a ATFA, o caso foi investigado em 2025 pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina.

O processo apurou a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador para ex-jogadores estrangeiros, além de uma possível participação de autoridades e funcionários da entidade.

Ainda de acordo com a ATFA, foram realizadas diligências, incluindo uma busca e apreensão na sede da instituição. Segundo a entidade, não foram encontrados documentos que comprovassem a emissão de diplomas, históricos escolares ou carteiras profissionais irregulares.

O Ministério Público Fiscal argentino teria solicitado o arquivamento do processo, e o Juízo Federal Criminal e Correcional responsável decidiu, em dezembro de 2025, pelo arquivamento por inexistência de crime, conforme a legislação processual penal argentina citada pela entidade.

Assim, embora a reportagem do UOL apresente novos elementos e relatos sobre a atuação de Mancuso, a investigação judicial mencionada pela ATFA foi arquivada pela Justiça Federal argentina em dezembro de 2025.

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