- A EPE propôs investimento de R$ 5,68 bilhões para ampliar transmissão de energia no Nordeste, com foco em Parnaíba e Pecém.
- O plano prevê etapas de implementação, com primeira fase de R$ 1,09 bilhão operando até 2 de 2032.
- A expansão busca evitar investimentos antecipados, dependendo da demanda por energia em áreas específicas.
- Novas linhas de transmissão e subestações serão construídas para atender demanda de data centers e hidrogênio verde.
- Simulações mostraram estabilidade do SIN com novas cargas, mas alertam sobre riscos de desligamentos acima de 2 GW.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) propôs um conjunto de investimentos estimado em R$ 5,68 bilhões para ampliar a infraestrutura de transmissão de energia no Nordeste, com foco especial nas regiões de Parnaíba, no Piauí, e Pecém, no Ceará. O objetivo é criar condições para a instalação de empreendimentos de grande consumo energético, como data centers e projetos voltados à produção de hidrogênio verde.
A proposta integra o Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas Eletrointensivas na Região Nordeste, divulgado pela estatal, e foi elaborada após a identificação de forte demanda por acesso à rede elétrica e de limitações na capacidade disponível para novos projetos.
Expansão ocorrerá em etapas
O planejamento apresentado pela EPE prevê uma implementação gradual da infraestrutura. A primeira fase, estimada em R$ 1,09 bilhão, deverá entrar em operação até 2032. Os demais R$ 4,59 bilhões dependerão da confirmação da demanda por energia nas áreas contempladas pelo estudo.
A estratégia busca evitar investimentos antecipados em estruturas que possam ficar subutilizadas, uma vez que os cronogramas de implantação de data centers e plantas industriais de hidrogênio ainda dependem de fatores econômicos, regulatórios e comerciais.
Segundo a análise, a solução permitirá a conexão de até 4 gigawatts (GW) de novas cargas nas regiões de Parnaíba e Pecém, independentemente da distribuição desse volume entre os dois polos.
Parnaíba ganha protagonismo
A escolha das regiões estudadas ocorreu após a identificação de forte concentração de projetos interessados em conexão ao sistema elétrico. De acordo com a EPE, Ceará e Piauí reúnem mais da metade da demanda potencial registrada no Nordeste.
Dos 31,8 GW em solicitações de acesso mapeadas pela empresa, 22,1 GW estão concentrados nos dois estados. Desse total, 23,5 GW correspondem a empreendimentos ligados à cadeia do hidrogênio verde, enquanto 8,3 GW são relacionados a data centers.
Outro fator decisivo foi o histórico de negativas para conexão à rede. Até janeiro de 2025, a área formada por Pecém e Parnaíba acumulava dez pedidos recusados por falta de capacidade disponível, situação considerada mais crítica do que a observada em outras regiões nordestinas.
Nova subestação será eixo da expansão
Entre as principais obras previstas está a construção da Subestação Pecém IV, em 500 kV, que deverá funcionar como ponto central de conexão para futuros empreendimentos industriais instalados no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
O pacote recomendado inclui ainda aproximadamente 1.848 quilômetros de novas linhas de transmissão em 500 kV, interligando áreas dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí.
O conjunto contempla novas conexões entre importantes subestações do sistema, além de reforços e seccionamentos que aumentarão a capacidade de escoamento e distribuição de energia na região.
Investimentos dependerão da evolução da demanda
O cronograma proposto estabelece gatilhos para a execução de novas etapas. Algumas obras só serão autorizadas quando determinados níveis de carga forem efetivamente contratados.
Uma segunda linha de transmissão entre Açu III e Pecém IV, por exemplo, passaria a ser necessária quando a demanda conjunta entre Pecém e Parnaíba alcançasse 1,5 GW. Já outros reforços estruturais dependeriam da contratação de pelo menos 2,6 GW de carga.
No caso de Parnaíba, a primeira linha dedicada de interligação com Pecém seria viabilizada quando a carga local chegasse a 500 megawatts (MW). Uma segunda conexão ficaria condicionada ao alcance de 2,5 GW de demanda na região piauiense.
Sistema apresentou estabilidade nos cenários avaliados
A EPE também realizou uma série de testes para verificar os impactos da entrada das novas cargas sobre o Sistema Interligado Nacional (SIN).
Foram simulados diferentes cenários operacionais, incluindo 24 contingências com a inserção de até 4 GW em Pecém ou Parnaíba. Segundo o estudo, não foram identificadas violações operativas capazes de comprometer a estabilidade do sistema.
Além disso, seis cenários de rejeição de carga foram analisados sem registro de colapso de tensão ou frequência.
Atenção para perdas de grandes blocos de carga
Apesar dos resultados positivos, a empresa destacou a necessidade de avaliações específicas para empreendimentos de grande porte.
As simulações apontaram que desligamentos superiores a 2 GW podem provocar sobretensões em determinadas subestações localizadas nas regiões de Pecém e Parnaíba, além de impactos operacionais em unidades geradoras estratégicas.
Por essa razão, a EPE recomenda que cada novo projeto realize estudos individualizados durante o processo de acesso ao SIN e, quando necessário, implemente medidas técnicas para mitigar eventuais riscos ao sistema elétrico.
Nova política de acesso reforça planejamento
O estudo também considera os efeitos da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast), criada para aprimorar o planejamento da expansão da rede.
Na avaliação da EPE, o novo modelo de temporadas de acesso tende a fornecer informações mais precisas sobre a demanda efetiva dos agentes interessados, contribuindo para decisões mais eficientes sobre investimentos e reduzindo o risco de construção de ativos que não venham a ser plenamente utilizados.