Dados que constam do relatório produzido pela organização internacional Circular Economy, e pela Consultoria Deloitte, denominado Circularity Gap Report Circularidade, divulgado ontem, colocam o Brasil num expoente negativo proeminente no que diz respeito à reciclagem de lixo, comparado a outros países desenvolvidos e em desenvolvimento no mundo.
O documento indica que no país apenas 1,3% dos materiais consumidos internamente são reutilizados, numa desproporção enorme com a média mundial, que é de 6,9%. A divulgação veio a propósito do Dia Mundial da Reciclagem, comemorado a cada 17 de Maio (neste domingo, portanto).
Essa data que foi reservada pela UNESCO desde 2005, lembra a governantes e tem por meta conscientizar as populações e empresas sobre a necessidade do descarte correto do lixo e sobre a importância de serem observados com rigor os chamados 3Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar.
No Brasil, em 2009, uma lei federal aprovada no Congresso criou o Dia Nacional da Reciclagem, que é celebrado em 5 de junho.
Não bastassem as duas datas para lembrar a enorme importância do tema na vida das pessoas e no desenvolvimento econômico e empresarial, o Brasil segue dando mostras de que não está levando a sério o compromisso de diminuir o lixo que é jogado no meio ambiente, comprometendo biomas, recursos hídricos e o próprio futuro.
Esse estudo que acaba de ser divulgado detalha pela primeira vez o quanto o Brasil está longe da chamada economia circular configurada nos 3Rs, o sistema em que objetos descartados deixam de virar lixo e são transformados em produtos novos. Isso, que é o espírito e a essência da reciclagem, não vendo sendo cumprido.
Tem-se preferido, na economia brasileira, seguir-se o modelo linear, que implica em produção, uso e descarte, pois 98,7% dos recursos retirados do meio ambiente são consumidos uma única vez e acabam se tornando resíduos. Esse é um fator apontado por especialistas ambientais como retrato do perfil extrativista do país, baseado em mineração, agropecuária e construção civil, que são setores que consomem grandes volumes de materiais com baixo aproveitamento posterior.
O Brasil extraiu 5,2 bilhões de toneladas de matéria-prima virgem em 2023, sendo que 4,1 bi-
lhões de toneladas foram consumidas internamente e o restante foi exportado.
Da pequena parcela de materiais reaproveitados, apenas 3, 7% vêm do tratamento de resíduos domésticos. Atividades de construção e demolição estão ligadas a 48,2% dos itens reciclados, e subprodutos industriais e agrícolas respondem por 48,1% do total.
Os números mostram que o reuso se concentra na cadeia produtiva, como o cascalho que volta para uma obra e o bagaço de cana-de-açúcar que vira energia.
Mas a presença da reciclagem domiciliar, do chamado lixo familiar e das empresas, é muitíssima baixa, sem qualquer impacto como demonstra ter em larga escala na construção civil e em várias atividades da agricultura e da indústria.
Aqui vem um dado significativo, que espelha bem a dimensão do problema: em média, cada brasileiro consome 19,8 toneladas de recursos naturais por ano, acima da média global de 12,6 toneladas por pessoa, e mais que o dobro do nível sustentável, de 8 toneladas.
Países em desenvolvimento tendem a consumir menos, mas os dados mostram que o Brasil consome muito e reaproveita pouco, de acordo com que os dados demonstram e os especialistas concluem.
No tocante especificamente ao quadro brasileiro, o relatório nacional calcula que 608 milhões de toneladas de resíduos foram geradas em 2023. Porém, apenas 43,5 milhões de toneladas foram recicladas.
Cerca de 262 milhões de toneladas, ou 43%, tiveram destinação inadequada, como lixões, ou sequer tiveram coleta. Outras 302,2 milhões de toneladas (49, 7%) foram direcionadas a aterros.