Neste mês de março, em que as mulheres são lembradas com mais relevantes reverências, desde a celebração de seu Dia Internacional, transcorrido no último domingo, chamam minha atenção dois registros que considero reparadores de violências cometidos contra elas ao longo da história.
Desde o esforço masculino de mantê-las submissas, atreladas ao seu domínio, passando pelas restrições no mercado de trabalho, pela imposição de rendimentos inferiores, até a prática de preconceito e violência, mulheres brasileiras têm uma longa história de sofrimento.
O que observo agora, e que me parece ser um sinal de que a sociedade está disposta a mudar seus conceitos, dando à mulher o seu devido e merecido lugar, é que alguns exemplos recentes apontam para uma disposição de reparar injustiças e erros cometidos recentemente e também em passado mais remoto.
O exemplo que diz respeito à atualidade, vem do Rio de Janeiro, com a decisão da executiva nacional do MDB de determinar a desfiliação do cantor e ator Dado Dolabella, que fora abraçado pelo partido na antiga capital, no seu pretenso desejo de ser candidato a deputado federal nas eleições deste ano.
O repúdio a Dolabella, resultante de firme reação das alas femininas do partido, vem do fato de ser ele acusado de violência contra mulheres, em pelo menos seis casos diferentes. Desde 2008 Dado Dolabella é acusado por sua ex-companheira, a também atriz Luana Puiovani, de ter sido por ele agredida.
Acusações iguais foram manifestadas por ex-companheiras e namoradas, desde sua ex-mulher Viviane Sarayba, e também por Mariana Dolabella (sua prima e ex-namorada), Wanessa Camargo, Luan Pereira e Marcela Tomaszewski.
Embora a maioria das mulheres sejam do Rio e aí tenham sido praticadas as violências, foi necessário o diretório nacional do MDB, na distante Brasília, impedir que Dolabella seguisse como integrante e candidato do partido, pois os membros do diretório do Rio nada sabiam. O alívio, que fica registrado, é que também no ambiente político começa a ser estabelecido que agressores de mulheres não têm vez.
O outro recorte, também acontecendo nos meios políticos, vem de São Paulo.
Na Capital Paulista, a Câmara de Vereadores da maior cidade da América Latina tomou a decisão de "cassar" o político Peixoto Gomide, que dá nome a um dos principais logradouros do Jardim Paulista, num dos pontos mais nobres da cidade. Tratava-se de uma homenagem ao advogado e influente político de Itapetininga, até então considerada "justa".
Acontece que no ano de 1906, Peixoto Gomide matou a tiros a sua própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos de idade, por não aceitar seu noivado com o poeta e promotor público da cidade de Itapetininga , às vésperas do casamento.
Após matar a vida da filha, Peixoto Gomide deu um tiro na cabeça e tirou a própria vida.
Foi necessário que se passassem 120 anos para que a Câmara de Vereadores de São Paulo descobrisse que não era decente, nem ético, nem coerente, nem justo, nem humano, ter uma homenagem desse tipo a um assassino de mulher, fato cruel agravado por ter sido a vítima a própria filha. A decisão da Câmara refere-se exclusivamente à via pública da Capital,mas em Itapetininga existem vários lugares homenageando Peixoto Gomide. Agora é ver o que acontecerá por lá.
E isso só se tornou possível graças a iniciativa das vereadoras Sílvia Ferraro, da Bancada Feminina do PSOL, e Luna Zarattini, do PT, que assinou como co-autora do projeto.
Pela decisão da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a mesma rua do Jardim Paulista perderá o nome de Peixoto Gomide, o assassino, e passará a chamar-se Sophia Gomide, a vítima, numa reparação expressiva a um inaceitável erro cometido no passado e sustentado por mais de um século.
Apesar dos avanços conquistados no Brasil no terreno legal, em proteção e apoio às mulheres, como a Lei Maria da Penha e o recente Grupo de Trabalho de Prevenção de Combate à Violência Política de Gênero, a realidade é que as agressões e desrespeito dentro mesmo dos partidos, afasta as mulheres das atividades políticas.
Aqui não se trata de um problema fácil de ser resolvido, pois reflete questões estruturais da sociedade, baseada historicamente na figura do patriarcado e do homem no papel de liderança.
Mas é possível ter-se a esperança de que os avanços na legislação, a punição a agressores, inclusive dentro dos próprios partidos políticos e nas esferas de administração pública, e a implantação de mecanismos reais de amparo, possam levar as mulheres a novos estímulos e a mais segurança em sua participação crescente no processo eleitoral e na conquista de espaços, no Executivo e nas Casas Legislativas, mudando um cenário, como o do atual Congresso, que é plenamente deplorável.