- Paulo Figueiredo, assessor de Flávio Bolsonaro, desqualificou capacidade de voto das mulheres em discurso nos EUA.
- Manifestação de Figueiredo reforça movimento internacional contra voto feminino, ligado a ideologias conservadoras.
- Após reação a Michelle Bolsonaro, Figueiredo defendeu que mulheres solteiras votam "estatisticamente mal".
- Movimento contra voto feminino ganha força na América e no Brasil, com apoio de influenciadores e líderes religiosos.
- Conquista do voto feminino no Brasil em 1932 é lembrada, destacando papel das mulheres na democracia.
A manifestação de Paulo Figueiredo, neto do ditador brasileiro João Figueiredo, e assessor internacional de Flávio Bolsonaro, feita na semana passada, nos EUA, desqualificando a capacidade de voto das mulheres, fica muito evidente de que não se trata de uma atitude isolada.
No revide que fez a Michelle Bolsonaro por conta do vídeo que ela produziu e postou contra Flávio Bolsonaro e sua postura machista, Paulo Figueiredo associa-se e reforça o movimento internacional contra o sufrágio feminino, uma onda que nasceu nas hostes trumpistas, com impulso entre pastores fundamentalistas- bases ideológicas importantes do presidente norte-americano-, que defendem o fim da 19a emenda da Constituição Americana, aquele mecanismo legal que permitiu o voto feminino.
Em 29 de junho, em programa semanal que mantém a partir diretamente dos Estados Unidos, onde reside e auxilia o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, cassado e condenado pela justiça brasileira, nas suas ações contra o Brasil e autoridades brasileiras, Paulo Figueiredo exerceu seu papel de influenciador para dizer que "mulher vota estatisticamentre mal, principalmente as mulheres solteiras".
Segundo ele, "mulheres casadas tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras,não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística."
A fala do extremista de direita brasileira , que aparentemente teria sido uma reação raivosa a Michelle Bolsonaro que, dia 24, postou nas redes sociais um vídeo expondo os atritos tidos com o pré-candidato do PL à Peresidência, Flávio Bolsonaro.
No vídeo ela afirma vir sendo humilhada pelo enteado (filho de Jair Bolsonaro), que teria dito a ela que ficasse fora de decisões partidárias, porque não entenderia nada desse tema.
Depois do que disse Figueiredo, as coisas vão se esclarecendo de acordo com os movimentos que começam a ganhar corpo nos Estados Unidos, em grande parte da Europa e- sabe-se agora, também no Brasil-, capitaneado por lideranças da extrema direita e por fundamentalistas religiosos, que vêm trabalhando para derrubar o voto feminino nos EUA e em todo o mundo.
Recentemente, o poderoso influenciador norte-americano Nick Fuentes, ligado a Donald Trump, em resposta a uma pergunta a ele dirigida por um apresentador de televisão, que lhe indagou "que direito tiraria das mulheres?", respondeu: "Eu eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos, das mulheres, com certeza."
Na mesma linha de raciocínio contra o direito das mulheres, o pastor norte-americano Doug Wilson, da Igreja de Cristo e líder da Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas, defendeu abertamente: "Um voto por família, mas decidido pelo marido." Essa opinião foi reproduzida pela Igreja de Cristo.
O voto feminino nos Estados Unidos, aprovado pelo Congresso em 4 de junho de 1919, foi ratificado em 1920, quando passou a vigorar, em 28 de agosto daquele ano.
Agora, o movimento em defesa do fim do voto feminino naquele país, que vem sendo propaganda por influenciadores e ativistas do porte de Nick Fuentes, entra de vez na pauta da extrema direita não apenas em território americano, mas está sendo abraçada por muita gente desse segmento ideológico no Brasil. A ideia, que não é exatamente nova, abraçada por figuras conservadores relevantes, tem se espalhado e conseguido até a adesão de mulheres.
O que Paulo Figueiredo está dizendo agora, já era propalado mais de um século antes, pelo senador norte-americano George Vest, e sustentava o mantra de que as mulheres não sabem votar.
Num histórico ( e vergonhoso) discurso no Senado, antes mesmo de que o século passado se iniciasse, em meio às pressões dos movimentos favoráveis ao voto feminino das mulheres, o senador Vest expôs alguns motivos pelos quais acreditva que as mulheres não deveriam participar do processo político.
E destacou: "Elas são essencialmente emocionais".
"O que queremos neste país", disse o senador republicano à época, "é evitar o sufrágio emocional, e o que precisamos é trazer mais a lógica para assuntos públicos, e menos sentimento. Há reinos em que o coração deve reinar supremo. Esse reino pertence à mulher, mas nunca quando se tratar de voto."
O movimento para acabar com o voto feminino nos Estados Unidos, embora ainda não tenha gerado uma lei, é uma retórica forte defendida por grupos de extrema direita, influenciadores digitais e líderes fundamentalistas, que já conta com forte adesão do próprio governo Trump, que vem propondo projetos de reforma eleitoral que criam obstáculos à liberdade e ao direito da mulher de votar, com fortes empecilhos ao voto da mulher casada.
Uma dessas ideias que a gestão Donald Trump vem tentando implantar seria o chamado "voto de família", que consiste na composição do “grupo familiar”, mas seria decidido exclusivamene pelo chefe de família, pelo homem (marido e pai).
Vê-se, agora, que o mesmo pensamento expresso de maneira vergonhosa há cerca de 130 anos, que nunca teve qualquer argumentação científica ou qualquer vestígio de verdade, seja agora incorporado por um dos principais influenciadores da campanha de um pré-candidato à Presidência do Brasil, que atua nos Estados Unidos, mesmo foragido do teritório brasileiro, como o braço direito de Eduardo Bolsonaro, o irmão de FLávio Bolsonaro, com uma atução reprovável e deplorável contra o próprio país. E por esse episódio, se manifesta contra as mulheres que, segundo eles, "não sabem votar".
Em 24 de fevereiro deste 2026, celebraram-se 94 anos da conquista do voto feminino no Brasil, um marco significativo para as mulheres e para a democracia brasileira.
Certamente, com seu zelo, responsabilidade e sensibilidade, as mulheres, com seus votos, tem enriquecido as nossas práticas democráticas. E que assim permaneça.