O que está acontecendo no Oriente Médio, após Estados Unidos e Israel terem se abraçado na coordenação e execução das ações militares que colocaram fim à vida do Aiatolá Ali Khamenei - que há décadas comandava o Irã - e daí espalhando-se o terror sobre toda a região, após a retaliação que os iranianos e aliados deflagraram, preocupa seriamente toda a humanidade, e o Brasil, particularmente.
Isso é evidente pela constatação de que esses conflitos não têm tempo para acabar e podem trazer no seu rastro consequências econômicas e sociais irremediáveis.
Embora Brasil e Irã estejam a mais de 12 mil quilômetros de distância e guardem diferenças relevantes, possuem, do mesmo modo, semelhanças e interesses marcantes-, independentemente dos sistemas políticos e culturais que carregam nos seus traços-, mantendo histórica parceria comercial, sobretudo no agronegócio.
O Brasil exporta para o Irã uma imensa quantidade de milho, soja e carne. No sentido contrário, o Irã é importante parceiro no fornecimento de adubo e fertilizantes para as nossas atividades rurais.
Enfim, o Irã é um dos principais aliados brasileiros no Oriente Médio.
Além disso, Brasil e Irã são membros efetivos do BRICS, aliando as duas nações como potências emergentes, prontas a aumentar o incremento e as trocas de cooperação no campo tecnológico, especialmente no setor de energias renováveis e no segmento de minérios.
Teria essa guerra, sem fim para terminar - como já indicam as análises de especialistas e o temor que governantes de todos os cantos começam a manifestar - o poder de mexer com a economia de países tão distantes geograficamente, a ponto de fazer aumentar o risco sempre temido da volta da inflação, de paralisar atividades econômicas vitais e arruinar a vida das pessoas aqui no Brasil?
A resposta, infelizmente, é sim.
Basta ver o que já começa a acontecer na Europa, com apenas quatro dias das atividades bélicas determinadas pela ação inicial de Estados Unidos e Israel. O simples fechamento do estreito de Ormuz, tederminado pelo Irã, começa a impactar negativamente o comércio e as relações entre todas as nações e o Oriente Médio, por uma razão concreta: A Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), formada pela Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e Catar, é o maior fornecedor de petróleo e gás natural de todo o mundo.
Diante das ameaças de que os navios que não respeitarem a proibição de navegação serão todos bombardeados, feitas pelo Irã, terão o efeito imediato de interromper o comércio desses produtos e, desse modo, levar todos os países importadores e verem seus estoques acabarem, os preços dispararem de maneira irrefreável, afetando as economias e a vida dos habitantes desses países.
Isso já começa a acontecer na Europa, onde países dependentes, por exemplo, do gás natural produzido e exportado pelo Catar, já afetam nações como o Reino Unido, que dependem muito dessas importações. Os preços do GNL na Europa já subiram 50% em menos de uma semana. E 20% de todas as exportações globais passam pelo Estreito de Ormuz.
Mesmo até para quem festeje o aumento das ações da Petrobrás e a alta expressiva da commodity chegue a 12%, diante dos acontecimentos no Oriente Médio, é necessário lembrar que esses aumentos não terão o poder de compensar outros impactos negativos.
Conforme advertem especialistas da Fundação Getúlio Vargas, o Brasil usa adubos e fertilizantes, e esses produtos são importados e chegam muito fortemente de países que estão no Oriente Médio, como o próprio Irã.
E como o fertilizante é a base do agronegócio, esse expressivo desempenho do setor, que no ano de 2025 subiu mais de 12%, deverá ser paralisado se esses conflitos persistirem por mais algumas semanas.
Estamos de cara com uma guerra distante, mas que tem a força de afetar a vida de cada um de nós. Para quem tem o hábito de não se preocupar com o que acontece fora do nosso quintal, por não significar nada na sua vida particular, é bom ficar atento para essa nova realidade que está batendo à porta, que pode ser cruel.