No forte discurso com que abriu mais uma Assembleia Geral da ONU- um gesto que se repete pela 10ª vez ao longo da história-, o Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas à Organização das Nações Unidas, acusando-a de ter sido levada a deixar de cumprir o seu papel primordial de manutenção da paz no mundo, e até mesmo, por sua postura de inércia e descaso, vir contribuindo para que conflitos armados mortais não tenham fim.
Lula colocou o dedo na ferida logo no início de sua fala, ao afirmar que "já em 1946, na primeira sessão dessa Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto". E disse:" Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez."
Lula está mais uma vez correto na sua análise e corajoso na sua advertência. O poder de veto no Conselho de Segurança da ONU- mecanismo que permite a qualquer dos cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) de sozinho bloquear solução de fundo, que possa por fim a conflitos armados por mais mortais que se transformem, têm tornado a instituição que foi criada para manter a paz, num organismo interte, impassivo, sujeito ao domínio do mais poderoso e, assim, levando a humanidade à insanidade e desesperança.
Os vetos admitidos no Conselho de Segurança funcionam como trava de imobilismo, impedindo que a ONU possa agir em conflitos cruciais onde essas potências estão envolvidas, por si ou por seus aliados, servindo como um mecanismo vergonhoso de enriquecimento e lucro para a indústria da guerra, que fabrica e distribui armas e equipamentos voltados para matar, gerando consequência gravíssimas para as populações mundiais e mergulhando todos na insegurança.
Esse imobilismo que tomou contou da ONU, gerado pelo poder de veto, especialmente, tem outros agravavantes, que lideranças mundiais observam e sobre as quais disparam alertas já há bastante tempo.
Lula apontou mais uma vez: o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, com trilhões de dólares financiando novas corridas armamentistas, espalhando tensões geopolíticas que ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de porporções globais.
Conforme o presidente Lula voltou a denunciar, a ONU perdeu totalmente a capacidade de proteger os mais vulneráveis, segundo ele, "os que não têm exército nem arsenais", e que o poder na Organização das Nações Unidas nunca foi tão pequeno. Isso decorre, além de uma desordem interna, que a cada dia concede mais força e influência às superpotências num "privilégio da insensatez", também do fato de que há hoje, em várias partes do mundo, em muitos casos com simpatia e apoio de algumas dessas superpotências, caminha um forte movimento para fazer desestabilizar instituições tradicionais como a ONU, OMS, UNESCO, FAO. Trump, por e exemplo, já determinou pessoalmente bloqueio financeiro à ONU e à OMS.
O objetivo seria enfraquecer e fazer desacreditar essas instituições que já prestaram grandes serviços à humanidade no passado, tornando-as frágeis e inservíveis, para fazer prevalecer o desejo e o empenho de se montar esquemas de governança que atendam aos interesses da extrema direita, que a cada dia avança no mundo.
Temos visto com alguma frequência que lideranças mundiais, associadas à direita nacionalista e ao populismo conservador adotam uma série de estratégias retóricas, financeiras e institucionais voltadas para questionar e limitar a atuação de órgãos multilaterais, como a ONU, a OMS, a FAO e a UNESCO.
Esse movimento fundamenta-se na defesa da soberania nacional irrestrita em oposição às agendas globais. Vê-se que há uma sintonia com os princípios que fundaram o nazifascismo, com as lições deploráveis que se viu na Alemanha e na Itália.
Nunca será demais e nem tarde demais, lembrar que o nazismo e o fascismo foram regimes políticos totalitários de extrema-direita que dominaram a Europa no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial (1919–1945). O fascismo surgiu na Itália com Benito Mussolini em 1922, e o nazismo ganhou força na Alemanha com Adolf Hitler a partir de 1933.
Isso resultou em dezenas de milhões de mortes e na destruição em massa da Europa durante a primeira metade do século XX. Esses regimes totalitários, baseados no ultranacionalismo, no militarismo e, no caso alemão, no racismo científico, provocaram a Segunda Guerra Mundial e alguns dos maiores crimes contra a humanidade da história.
Lula precisa ser ouvido por governanças mundiais e pelos dirigentes dessas organizações que, no momento enfranquecidas e desnorteadas, precisam ser restauradas para evitar o pior e, no outro caminho, colocar a humanidade na volta da esperança e da paz.