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Coluna do jornalista José Osmando - Brasil em Pauta

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Moradores de rua crescem 26 vezes em 13 anos na cidade de São Paulo

São Paulo registra mais de 100 mil moradores de rua, liderando um aumento alarmante no Brasil. Entenda as causas e o impacto da falta de políticas públicas

Moradores de rua: SP lidera aumento alarmante no Brasil | Reprodução

A cidade de São Paulo, a capital do maior Estado e da economia mais forte do país, ocupa  o primeiro lugar no ranking das cidades em que existem mais pessoas morando nas ruas, em condição de completo abandono, subtraídas de dignidade humana, submetidas a condições desprezíveis de falta de trabalho, de  teto, de alimentos e um mínimo de conforto.

Em 2012, quando a série de verificação começou a ser aplicada no Brasil, os números apontavam que a cidade de São Paulo possuía 3.842 pessoas em situação de rua. 

Em 2025 esse contingente ultrapassou pela primeira vez a casa dos 100 mil, atingindo 101.461 pessoas em situação de desamparo pleno. Isso significa que o número de moradores de rua em São Paulo subiu 26 vezes na comparação com 2012.

O Rio de Janeiro, também no Sudeste do país, ocupa a segunda posição no crescimento de moradores de rua. Na ex-capital da República o aumento foi infinitamente mais expressivo, atingindo 187 vezes a quantidade de desamparados, se comparados aos números encontrados em 2012.

Os dados desse levantamento encontram-se no relatório do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com Populações em Situação de Rua, produzido pela Universidade Federal de Minas Gerais, levando em conta para a base do cálculo o Cadastro Único de Programa Sociais (CadÚnico), órgão responsável por reunir beneficiários do Bolsa Família e de outros programas sociais de transferência de renda.

O levantamento mais recente traz números relativos ao mês de dezembro do ano passado, fazendo comparação com 2024, mostrando que em todo o Brasil o crescimento dessa população foi de 11%, muito abaixo do que se registra em São Paulo e no Rio de Janeiro. A variação percentual, nacional, representa cerca de 38 mil pessoas acrescidas nos últimos 12 meses, passando de 327 mil para 365 mil. 

Por região, o Sudeste concentra a maior população, com 222.311 pessoas morando nas ruas, o que equivale a 61% de todo o total brasileiro. A cidade Belo Horizonte, também no Sudeste, capital do Estado de Minas, assume a terceira posição nacional nessa desabonadora condição de populações de rua, com 15.474 seres humanos largados na marginalidade em dezembro de 2025.

Os analistas atribuem esse crescimento acelerado de moradores de rua a dois fatores reais. Primeiro, aos efeitos da pandemia da Covid-19, a partir de 2020, mas consideram que isso foi uma evidência atenuada a partir, sobretudo, de 2023. O segundo aspecto, que permanece, é a falta de políticas públicas eficientes, capazes de impedir que pessoas sejam obrigados a buscar as ruas como meio de sobrevivência.

 Esse é um ciclo vicioso grave, pois as principais vítimas desse público são as crianças que, vivendo nas ruas, sem teto, sem cama, sem higiene, com alimentação precária, raramente terão a chance de vencer na vida com dignidade, embora os milagres, em alguns casos, aconteçam. 

Nessa concentração de pessoas morando nas ruas, o Nordeste aparece na sequência, embora os números sejam menos expressivos do que o Sudeste. Em toda a região, os registros de dezembro de 2025 mostraram 54.801 (15%)  pessoas em toda a região, seguindo-se a região Sul,  com 45.430 (12%).

Uma das razões para que o crescimento no número de moradores de rua apareça desse modo, agora tão crescente, é que as informações prestadas pelos municípios na alimentação do CadÚnico também sofreram grande impulso. Em 2012, apenas 10% dos municípios do país alimentavam o Cadastro Único, e agora já são mais de 60%. E a cada dia fica mais difícil aos gestores públicos maquiarem informações.

A situação de pessoas desamparadas, desprovidas de moradia, de trabalho e renda, de alimentação, de agasalho, de mínimos serviços de higiene, é um quadro histórico que nos leva aos tempos da escravidão, que fundou as bases da economia brasileira. Mesmo depois da abolição da escravatura, a condição humilhante dessas populações teve sequência, com a negação de acesso à terra, moradia, trabalho, saúde e educação. 

Populações inteiras, especialmente negros, os de origem indígena, mulheres e idosos, passam historicamente por processos crescentes de estigmatização e criminalização, sofrendo na pele as consequências da descriminação e preconceito.

Com o crescente e permanente avanço dos ganhos financeiros e acumulação econômica nas mãos de reduzidos grupos sociais, gerando-se uma economia marcada pela desigualdade suprema, famílias inteiras são a cada ano desmontadas pelas carências e falta de oportunidade, mergulhando nas ruas como saída para seu sofrimento.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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