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Coluna do jornalista José Osmando - Brasil em Pauta

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Muito tardiamente a ONU parece ter ouvido Darcy Ribeiro sobre o horror da escravidão

A ONU aprovou resolução histórica reconhecendo a escravidão transatlântica como crime contra a humanidade e genocídio. Saiba mais sobre o impacto no Brasil e a luta por reparações

Organização das Nações Unidas (ONU) | Reprodução

A Organização das Nações Unidas (ONU)- que há muito anda fragilizada diante da sua impotência para conter graves conflitos armados pelo mundo afora, sobretudo relacionados aos massacres feitos por Israel contra o povo palestino, e mais recentemente pela guerra imposta por israelenses e EUA no Oriente Médio-, finalmente resolveu adotar uma postura decente, firme e necessária.

Na sua Assembleia Geral encerrada neste último dia 25 de março, a ONU adotou uma resolução louvável, que nasceu de uma iniciativa de Gana, em que reconhece formalmente que o tráfico transatlântico de escravisados africanos constituiu-se no crime mais grave contra a humanidade e um dos mais trágicos genocídios da história dos humanos. 

A ONU defende que esse processo longo e brutal de desumanização sistemática imposto aos africanos,em favor de alguns poucos países, deve ser criteriosamente fruto de reparação.

A resolução aprovada na ONU recebeu 123 votos favoráveis, incluindo o Brasil, mas teve, sem surpresa significante para ninguém, três votos contrários. Os que deram as costas para essa vergonhosa realidade histórica, foram:  Israel, Estados Unidos e (imaginem só...), a Argentina. O Reino Unido, um histórico colonizador com práticas despresíveis, sobretudo no Continente africano, absteve-se de votar, o que também significa um desacordo com a resolução que condena o tráfico e a prática da escravidão no mundo.

Pela resolução, a escravidão transatlântica é classificada como um regime que resultou na morte de milhões de pessoas e na desumanização sistemática de populações africanas. Ao adotar essa posição, a ONU fornece as bases para que a partir  de agora, com amparo legítimo, possam ocorrer pressões consistentes por reparações históricas e a necessidade de ser criado um Tribunal Especial da ONU para lidar com as consequências maléficas dessa exploração. 

Embora o termo "genocídio" tenha definições técnicas estritas na Convenção de 1948, o reconhecimento da ONU foca na escala sem precedentes de atrocidades e na necessidade de justiça histórica. 

Este é um assunto que interessa particularmente aos brasileiros, pois foi em nosso território que se desenvolveu um dos piores regimes de escravidão do universo, uma desgraça que durou quase 400 anos(séculos XVI até 1888), sendo o país das Américas que mais recebeu populações sujeitas a trabalho forçado, sem remuneração, calculando-se que mais de 4 milhões de africanos tenham, no Brasil, sido marcados por crueldade suprema, com castigos físicos extremos, jornada de trabalho forçado de gigantesca intensidade, resultando em altíssimas taxas de mortalidade e exploração do tráfico de crianças.

Outra particularidade, e essa  nos é muito cara, é o fato de que o nosso imenso intelectual, antropólogo, sociólogo e homem de desmedida coragem cívica, Darcy Ribeiro, ter sustentado por toda a sua vida acadêmica e de escritor vigoroso, a denúncia , sem esmorecer um só minuto, sobre a “herança maldita", como assim classificava, que representa o  longo período em que o país esteve imerso no trabalho escravo, no tráfico, na desumanização, e a tragédia que resultou, disso aí, a formação econômica e social do Brasil. 

Darcy sempre sustentou que a escravidão  foi o pilar da formação social brasileira, gerando uma herança de desigualdade brutal, sadismo e profunda desigualdade racial e social. Ele denunciava que o Brasil foi moldado por uma constante “doçura" com os senhores, os poderosos donos da terra,  feitores da “ brutalidade" com os escravizados, criando uma elite cruel e uma massa excluída, resultando no subdesenvolvimento. 

Vem daí o fato de que a classe dominante brasileira, a chamada "elite", herdou a mentalidade senhorial, perpetuando o atraso, com exercício permanente de exploração sobre os "inferiores", mesmo depois do fim da escravidão, que só aconteceria oficialmente com a Lei Áurea, de 13 de Maio de 1888, sem, contudo, eliminar as consequências danosas, até mortais, sobre os que seriam "libertados". 

Uma realidade, infelizmente, que ainda permanece viva na mente e na prática dos que estão no andar de cima, moldando e manipulando  nossa economia.

Darcy Ribeiro sempre denunciou, com destaque para sua monumental obra O Povo Brasileiro, que a brutalidade contra os escravisados continua se refletindo na violência e nas desigualdades  contemporâneas, pois a classe dominante que traça os caminhos do país, é vista como uma herdeira dos senhores de escravos, tal o desprezo  pelo trabalho manual e pelos destinos do povo.

Passados 29 anos da morte de Darcy Ribeiro (1997) e diante de uma resolução com caráter histórico e reparador tão importante, assumida pela ONU, ainda fica difícil acreditar que a "mais terrível das nossas heranças", esse  marco da brutalidade exercida contra negros africanos e índios brasileiros, venha um dia, de fato, a ser ao mínimo atenuada por uma prática nova de civilidade e humanismo, o que seria caracterizado  pela redução profunda das desigualdades econômicas e sociais.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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