- Facções criminosas ocupam espaço na mídia após medida do governo Trump.
- Medida visa classificar PCC e CV como organizações terroristas, permitindo ação de forças norte-americanas no Brasil.
- Presidente Trump afirma que esses grupos atuam em 12 Estados dos EUA, mas não localizou seus agentes ou prendeu-os.
- Aumento da importação de armas e munições no Brasil facilita o crime organizado, que assume territórios e postos de comando no mercado financeiro.
As facções criminosas- esses muitos retalhos do crime organizado que se instalou no Brasil-, passam a ocupar todos os espaços da mídia desde a semana passada, por uma razão que vem de fora do país. Tudo porque o governo Trump, dos EUA, teria resolvido cumprir a promessa feita há algum tempo de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), como organizações terroristas.
Ao que diz a imprensa, baseada em declarações do governo norte-americano e nas manifestações da família Bolsonaro (Flávio e Eduardo à frente)- que fez pessoalmente a Trump o pedido para que os EUA agissem nessa rotulagem-, tal medida deverá abrir caminho para que forças de segurança norte-americanas ( da inteligência às armas), possam entrar no Brasil para combater esses grupos criminosos.
Um dos argumentos é de que o Governo Trump já localizou cerca de 12 Estados norte-americanos em que a presença do PCC e do CV já está registrada. Ou seja, esses grupos criminosos estão atuando também no país mais poderosos do universo.
Dito isso, não me contenho no questionamento: se Trump e seus auxiliares já descobriram a presença do PCC e do CV em 12 de seus Estados, por que ainda não conseguiram localizar os seus agentes, prendê-los e impedir que continuem atuando? E como Trump e seus auxiliares entendem que pretendem ter sucesso em incursões dentro do Brasil, no combate a essas organizações, pisando um terreno em que nunca antes colocaram o pé?
Ora, organizações criminosas, na forma dessas poderosas e crescentes facções, existem no Brasil desde os anos 1970, quando o Comando Vermelho surgiu dentro do Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, e quando em 1993 foi fundado o PCC no sistema penitenciário de São Paulo, inicialmente como uma autodefesa dos presos contra a violência e as condições desumanas do sistema carcerário.
Até meados dos anos 2010, o PCC e o CV mantinham uma aliança estratégica para o tráfico de armas e drogas. O rompimento dessa aliança se dá por volta de 2016, deflagrando-se daí uma guerra sangrenta pelo controle das rotas de distribuição e do domínio territorial em áreas enormes do Rio de Janeiro, daí expandindo-se para outras cidades.
O ano de 2016 passa a ser um marco trágico dessa história. Começa pela derrubada da Presidente Dilma Roussef do comando do poder executivo, cuja arquitetura se inicia e maio e termina em agosto desse ano, com a votação do impeachment e a na sequência a posse do vice Michael Temer.
A chegada de Temer ao Governo trouxe o enfraquecimento da legislação contra armas de fogo e munições, com a edição de sucessivos decretos e portarias que derrubaram barreiras legais sobretudo à importação de armas pesadas.
Temer apenas iniciava uma jornada infeliz que seria robustecida e ampliada por Jair Bolsonaro, que se elege presidente em 2020. Bolsonaro reverteu o controle vigoroso sobre armamentos que se dava até a ex-Presidente Dilma no poder, facilitando o acesso da população civil e a criação de centenas e milhares de clubes de tiro espalhados pelo país afora.
Sob Bolsonaro, o limite de compra de armas de fogo passou de uma para quatro e em seguida para seis por pessoa.
Civis e atiradores passaram a ter acesso a armas de grosso calibre e alta letalidade, passando a ter armas antes só permitidas às Forças Armadas.
Em 2023, a própria Polícia Federal registrava que até aquele momento 3.893 armas adquiridas legalmente para os CACs e clubes de tiro foram roubadas e extraviadas, indo parar nas mãos dos integrantes de facções criminosas.
Uma pesquisa recente do Instituto Sou da Paz, aponta que CACs (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) compram, em média, mais de 5 mil munições de fuzis típicos de facções por dia no Brasil.
A importação de armas por brasileiros cresceu 1.473% desde 2016, batendo algo próximo dos R$ 100 milhões só em 2019.
Com mais armas e munições em seu poder, e com a ausência de fiscalização e controle face ao desmonte de Temer e Bolsonaro, ficou fácil o crime organizado tomar conta de territórios, subjugando populações inteiras aos seus intentos criminosos, e também assumissem postos de comando e ação no mercado financeiro, com destaque na Faria Lima, coração do capitalismo paulista, permitido a atuação de fintechs na lavagem de dinheiro, na compra clandestina de empresas e na falsificação e adulteração de produtos.
Vê-se, por tudo isso, que pedir ao Presidente Trump que atue no Brasil, atingindo a soberania nacional, pode não apenas ser um tiro no pé. Mais que isso, o tiro pode sair pela culatra e atinja quem o detonou.