Menos de uma semana depois de o vereador Lucas Pavanato,do PL, integrante da Câmara Municipal da cidade de São Paulo, ter proferido duras agressões aos professores, chamando-os de "burros" e "vagabundos", durante sua manifestação em plenário, uma pesquisa realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es(ONVE), da Universidade Federal Fluminense, revela o crescimento alarmanete das agressões sofridas por educadores a partrir de 2010, com picos em 2016, ano em que se deu o impeachment da Presidente Dilma Roussef.
Esse ambiente de hostilidade permaneceu nos anos eleitorais de 2018 e 2022, e seguem sem interrupção, a demonstrar que se trata de uma estratégia que favorece politicamente a extrema direita e parte considerável da direita bolsonarista, ao tentarem acuar e desacreditar os agentes da educação, sobretudo em questões relacionadas a posicionamentos morais.
A pesquisa do Observatório ouviu 3.012 profissionais de educação básica e ensino superior das redes pública e privada, e trouxe dados preocupantes, como mais de 10% dos entrevistados(as) declarando ter sofrido agressões físicas dentro da sala-de-aula e o espantoso universo de 94% revelando que foram vítimas ou testemunharam outras formas de agressão, como perseguição, censura, intimidação ou agressão verbal.
A maior incidência desses indesejáveis registros ocorre no Sul do país (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), região em que apenas 4% dos entrevistados(as) disseram desconhecer esse tipo de ocorrência.
Entre os agentes das intimidações e agressões, aparecem com destaque estudantes e seus familiares. E o ambiente das intimidações é exatamente o interior da escola, quase sempre dentro da sala-de-aula. E outro dado que se confirma: a polarização política, a disputa insensata e brutal entre grupos adversários, representa 73% dos acontecimenmtos, que quase sempre começam com questionamentos por temas como questões de gênero e sexualidade(53%), assuntos relacionados a religião(48%) e 41% por negacionismo científico, este com evidente predominância no período da pandemia.
Uma conclusão extraída da pesquisa é desalentadora para esses profissionais ou para pessoas que desejavam ingressar na profisão: 47% dos que atualmente estão no papel da educador creditam o crescente estresse por que passam, e mesmo até o adoecimento mental, à intimidação e abuso verbal disparados por estudantes contra eles, confirmando aqui dados que já haviam sido extraídos da última Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendisagem, de 2024, feita pela OCDE(Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
E mais: as violências de toda espécie, o baralho excessivo, a desordem na sala-de-aula, têm sido, desde 2018, o fator mais decisivo para desistimular jovens egressos das faculdades de pedagogia a ingressarem no magistério, seja através das escolas públicas ou mesmo das redes privadas de educação.
Em 2024, mais de 50% dos professores brasileiros reclamavam do problema, ante aproximadamente 33% em Portugal, Chile, Finlândia e África do Sul — e menos de 5% no Japão e na China.
Tal situação ajuda a desestimular vocações para o ensino. De acordo com as projeções do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superiorno Estado de São Paulo), faltarão até 235 mil professores para as redes públicas de educação básica até 2040. No momento, já há necessidade de 57% a mais de professores com formação específica em matemática para lecionar a disciplina, segundo o MEC.
E o aval a esse desrespeito aos educadores parece ter a rubrica do poder público estampada como estímulo aos agressores.
Por exemplo, as falas ensandecidas do vereador paulistano Lucas Pavanato foram pronunciadas durante uma sessão do legislativo que votava a proposta de reajuste dos professores da rede municipal, encaminhada pelo também bolsonarista prefeito Ricardo Nunes, que oferecia um reajuste total, pasmem os leitores, de 3,51% para todas as categorias de ensino, isso mesmo dividido em duas parcelas. Uma, de 2% , para maio de 2026, e a outra parte, de 1,48%, para maio de 2027.
Mesmo com protestos dos professores, os vereadores preferiram seguir o que o prefeito quis e ouvir apenas a voz do vereador agressor, aprovando a proposta por 35 votos a 16.