- Deepfakes continuam circulando nas redes sociais durante a campanha eleitoral de 2026, apesar da proibição da Justiça Eleitoral.
- Projeto VigIA identificou 554 deepfakes em 40 dias, com 60% dos conteúdos analisados confirmados como manipulados por IA.
- A maioria dos deepfakes foi publicada por usuários comuns, incluindo contas anônimas, dificultando a fiscalização eleitoral.
- Apesar da legislação que exige identificação de conteúdo gerado por IA, apenas 40% dos casos analisados tiveram sinalização adequada.
- Publicações com fins políticos, como promoção de candidaturas ou ataques, foram as mais frequentes entre os deepfakes identificados.
Mesmo com a proibição da Justiça Eleitoral, conteúdos produzidos ou manipulados com inteligência artificial, conhecidos como deepfakes, continuam circulando nas redes sociais durante a campanha para o primeiro turno das eleições gerais de 2026. Um levantamento do projeto VigIA, realizado pela Agência Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou 554 vídeos e imagens desse tipo em um período de 40 dias.
Ao todo, 920 publicações analisadas entre 16 de agosto e 28 de setembro tiveram o uso de inteligência artificial confirmado. Os deepfakes representaram 60% desse total. Entre eles, 29 conteúdos foram publicados por perfis de candidatos ou partidos, o que pode resultar em sanções previstas pela legislação eleitoral.
Deepfakes são conteúdos produzidos ou alterados por ferramentas de inteligência artificial que manipulam a imagem, a voz ou outros elementos de uma pessoa real. Dessa forma, alguém pode aparecer, por exemplo, dizendo frases ou realizando ações que nunca aconteceram.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso desse tipo de conteúdo durante o período eleitoral. Dependendo das circunstâncias, a publicação pode resultar em sanções, inclusive na cassação do registro ou do mandato. Para a aplicação dessas medidas, porém, é necessário que o conteúdo esteja caracterizado como propaganda eleitoral e tenha potencial de enganar o eleitor.
Usuários comuns são maioria
O relatório divulgado pelo VigIA aponta que a maior parte dos conteúdos identificados foi publicada por usuários comuns. Das 554 deepfakes encontradas, 525 foram compartilhadas por esse grupo, incluindo contas anônimas ou de difícil identificação.
Para Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo levantamento, o cenário representa um desafio para a fiscalização eleitoral, já que grande parte das publicações não parte diretamente de candidatos ou partidos.
Segundo ela, caso seja necessário retirar esse tipo de conteúdo de circulação devido ao risco de desinformação, a Justiça Eleitoral também precisará atuar em conjunto com as plataformas digitais para identificar os responsáveis pelas contas.
Entre os exemplos mais frequentes estão vídeos falsos em que jornalistas aparecem supostamente anunciando notícias que nunca aconteceram e conteúdos nos quais celebridades demonstram, de forma fictícia, apoio a determinados candidatos.
Maioria dos conteúdos não foi identificada como IA
O levantamento também apontou problemas relacionados à identificação dos conteúdos produzidos com inteligência artificial. A legislação eleitoral permite o uso da tecnologia, desde que as peças criadas ou modificadas com auxílio de IA sejam devidamente sinalizadas.
Dos 920 conteúdos analisados pelo VigIA, apenas 371, cerca de 40%, apresentavam a identificação de que haviam sido produzidos ou alterados com inteligência artificial. Os outros 549 não tinham a sinalização exigida. Desse grupo, 75 publicações foram feitas por candidatos ou partidos.
Quase 2 mil conteúdos suspeitos foram coletad
Durante o período analisado, o projeto VigIA coletou 1.941 conteúdos político-eleitorais considerados suspeitos. Até o momento, 972 imagens e vídeos passaram por análise, com 920 casos em que foi confirmado o uso de inteligência artificial.
A investigação utiliza três ferramentas de detecção de IA para identificar possíveis sinais de manipulação. Depois dessa etapa, os resultados são analisados pelos pesquisadores para confirmar os casos.
Além dos deepfakes, o estudo também identificou conteúdos sintéticos, nos quais a inteligência artificial foi utilizada para criar ou modificar elementos de uma publicação, sem necessariamente atribuir a uma pessoa falas ou ações que não ocorreram.
Para Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa, os números indicam que a inteligência artificial já passou a fazer parte da comunicação política cotidiana, deixando de aparecer apenas em casos isolados.
Ataques e promoção de candidaturas
A promoção de candidaturas foi a finalidade mais frequente entre os conteúdos identificados pelo VigIA. Esse tipo de publicação apareceu em 414 dos 920 casos analisados, o equivalente a 45%.
Por outro lado, cerca de um quarto das publicações apresentava ataques contra candidatos ou outras pessoas. Uma proporção semelhante utilizava inteligência artificial para produzir conteúdos de humor ou sátira.
As eleições presidenciais concentraram grande parte das publicações analisadas. O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi a figura pública mais retratada, aparecendo em 379 conteúdos. Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em 190 publicações.
Entre os conteúdos envolvendo Lula, 39% foram classificados como humor ou sátira, enquanto 34% tinham como objetivo atacar sua candidatura. No caso de Flávio Bolsonaro, 40% das publicações buscavam favorecê-lo e 28% tinham caráter humorístico ou satírico.
Na análise geral, os usuários comuns continuaram sendo os principais responsáveis pelas publicações. Eles representaram 47% dos autores identificados. Outros 27% dos conteúdos partiram de perfis desconhecidos, enquanto 24,5% foram publicados por contas oficiais de candidaturas.