- Senador Flávio Bolsonaro utilizou passaporte diplomático cancelado para entrar nos EUA nesta quarta-feira.
- PF informou que passaportes do senador foram cancelados após decisão do ministro Alexandre de Moraes.
- Flávio deixou o Brasil após derrota de Lula, chegando à Argentina e embarcando em avião particular para Miami.
- Família desembarcou às 10h24 no aeroporto de Opa-locka, em Miami, após escala em Guayaquil, no Equador.
- PF alertou sobre risco de saída do Brasil devido a possíveis perseguições políticas e poder econômico do senador.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) utilizou um passaporte diplomático cancelado para entrar nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28), segundo consulta ao sistema da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (U.S. Customs and Border Protection). Flávio, a esposa e as duas filhas chegaram pela manhã a um aeroporto de Miami, na Flórida.
A Polícia Federal (PF) informou nesta quarta-feira que os passaportes comum e diplomático do senador foram cancelados após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no domingo (25).
Segundo a PF, Flávio foi intimado na manhã de segunda-feira (26) a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades em até 24 horas, mas não cumpriu a determinação.
O senador também possui cidadania italiana e recebeu um passaporte do país em 2023, durante o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni. De acordo com o plano de voo do jatinho, foi esse documento que ele utilizou para deixar a Argentina e seguir viagem aos Estados Unidos.
Como Flávio Bolsonaro chegou aos Estados Unidos
Flávio deixou o Brasil na terça-feira (27), após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial. O senador entrou na Argentina por via terrestre e embarcou em um avião particular com destino aos Estados Unidos.
A aeronave fez uma escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para a Flórida. O trajeto não passou pelo espaço aéreo brasileiro. Flávio e a família desembarcaram às 10h24 desta quarta-feira, no horário local informado na reportagem, no aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami.
O avião utilizado pela família é um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW.
Na terça-feira (27), o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que permitiria a entrada de Flávio e dos familiares e concederia vistos aos quatro. Até a última atualização desta reportagem, o governo norte-americano não havia especificado quais tipos de visto seriam concedidos.
Lula venceu Flávio no segundo turno, realizado no domingo (25), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
Flávio Bolsonaro desembarca em Miami | Foto: Reprodução
Cronologia da saída do Brasil
A viagem do senador foi cercada de incertezas antes da confirmação de sua chegada aos Estados Unidos. Veja os principais acontecimentos:
Terça-feira (27), pela manhã: começaram a circular informações sobre uma possível saída de Flávio do Brasil. O site argentino Infobae publicou, com base em fontes do governo local, que o senador teria cruzado a fronteira e embarcaria em um voo.
Ao longo da terça-feira: fontes da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos indicaram que o território norte-americano seria o destino final do senador e de sua família. Aliados do PL afirmaram não ter informações sobre a viagem.
Madrugada de quarta-feira (28): o governo argentino confirmou formalmente a entrada de Flávio e dos familiares no país. Segundo a Direção Nacional de Migrações, os quatro cruzaram a fronteira por terra às 22h50 de terça-feira, no horário de Brasília, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, perto de Foz do Iguaçu (PR).
Entrada na Argentina: as autoridades migratórias informaram que os quatro apresentaram documentos válidos para a viagem e não tinham impedimentos legais para entrar no país.
Embarque e chegada aos EUA: a família seguiu para Puerto Iguazú, onde embarcou na aeronave LV-JQW. O avião fez escala em Guayaquil, no Equador, antes de chegar a Miami. Segundo o FlightAware, o trajeto passou pelo Paraguai, pela Bolívia e pelo Peru, sem cruzar o espaço aéreo brasileiro.
Em meio à repercussão da viagem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a insinuar, sem apresentar provas, que houve fraude na eleição brasileira. Trump também declarou que aprovava a ida de Flávio aos Estados Unidos.
Até a última atualização desta reportagem, Trump não havia se manifestado sobre a chegada do senador. O presidente da Argentina, Javier Milei, e o governo do Equador, liderado por Daniel Noboa, também não haviam se pronunciado sobre o caso. Os dois governos são aliados da família Bolsonaro.
Rota de voo de Flávio Bolsonaro e família entre Guayaquil, no Equador, e Miami, nos Estados Unidos, em 28 de outubro de 2026 | Foto: Reprodução/FlightAware
Flávio descumpriu ordem do STF sobre entrega de passaportes
Na noite de domingo (25), Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse seus passaportes. O senador não cumpriu a ordem dentro do prazo estabelecido, que terminou às 11h de terça-feira (27).
A decisão foi tomada em uma investigação na qual Flávio e o advogado Willer Tomaz são suspeitos de envolvimento em um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado a empresas ligadas a Tomaz e a plataformas de apostas, conhecidas como bets. Os dois confirmam que são amigos, mas negam ser sócios e rejeitam qualquer irregularidade.
Flávio também é investigado formalmente pela Polícia Federal em um inquérito que apura possíveis crimes relacionados ao financiamento da produção do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
PF apontou risco de saída do país
Antes da viagem, a Polícia Federal apontou riscos considerados “concretos e atuais” de que Flávio deixasse o Brasil. A avaliação constou de um pedido apresentado a Alexandre de Moraes para apreender os passaportes do senador e proibir sua saída do país.
Segundo a PF, três fatores indicavam a possibilidade de o senador deixar o território brasileiro sob a alegação de perseguição política:
- A manifestação pública de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que defendeu que ele deixasse o país caso perdesse a eleição;
- O expressivo poder econômico do senador;
- A existência de estruturas no exterior que poderiam permitir sua permanência prolongada fora do Brasil.
No pedido encaminhado ao STF, a PF citou uma declaração de Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado, na qual ele recomendou publicamente que o irmão deixasse o país em caso de derrota eleitoral. O documento também mencionou que Eduardo havia sido condenado pelo crime de coação no curso do processo.