Réu pelos atos golpistas de 8 de Janeiro e considerado foragido da Justiça brasileira, o bolsonarista Apolo Carvalho da Silva conseguiu driblar controles da Polícia Federal (PF) e do Itamaraty, obteve um novo passaporte mesmo com mandado de prisão em aberto e deixou o México rumo à Europa. Já em território espanhol, solicitou “proteção internacional” ao governo da Espanha, segundo informações publicadas pelo UOL.
FALHAS NO SISTEMA
Erros na utilização de sistemas oficiais e a ausência de comunicação entre servidores permitiram que Apolo ignorasse decisões judiciais que proibiam a emissão de novos documentos e a saída do país. Aos 28 anos, ele responde por incitação ao crime e associação criminosa, no contexto das invasões às sedes dos Três Poderes, em Brasília.
RECONHECIMENTO DE IRREGULARIDADE
O próprio Ministério das Relações Exteriores reconheceu a irregularidade. Em nota, o Itamaraty admitiu “falha” e “concessão indevida de passaporte comum”, informando que o documento só foi cancelado em 29 de janeiro. O ministério também afirmou ter iniciado uma revisão interna dos procedimentos de emissão de documentos de viagem para “evitar equívocos como o que lamentavelmente ocorreu no México”.
ROTAS DE FUGA PELA AMÉRICA LATINA
Em 2024, Apolo deixou o Brasil e se juntou a outros investigados pelos ataques de 8 de Janeiro que haviam se refugiado na Argentina. Meses depois, participou de uma nova evasão, atravessando Peru e Colômbia. O grupo seguiu para o México e parte dos envolvidos acabou presa ao tentar entrar nos Estados Unidos.
BASE NO MÉXICO
Entre janeiro e dezembro do ano passado, Apolo permaneceu no México, fixando residência no estado de Querétaro, a cerca de 200 quilômetros da capital. No período, trabalhou como mecânico e utilizou o local como ponto de apoio para planejar sua terceira fuga.
BOLETIM DE OCORRÊNCIA FALSO
Em 2 de setembro de 2025, o bolsonarista foi à Cidade do México e registrou um boletim de ocorrência alegando falsamente a perda do passaporte. No documento, declarou: “Perdi meu passaporte no centro da Cidade do México. Eu me dei conta da falta do documento ao chegar ao hotel”. Em seguida, acrescentou: “Estava no México como turista.”
DOCUMENTAÇÃO APRESENTADA
Com o registro policial, Apolo reuniu os documentos exigidos pelo consulado brasileiro, incluindo carteira de motorista, segunda via da certidão de nascimento obtida pela internet, título eleitoral digital, comprovantes de quitação de multas eleitorais e número do CPF. Também forneceu um endereço falso, dificultando sua localização.
ORDEM JUDICIAL IGNORADA
À época, Apolo estava submetido a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que determinava uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar, proibição de sair do país e entrega do passaporte. A ordem também exigia que PF e Itamaraty adotassem “todas as providências necessárias para obstar a emissão de quaisquer outros passaportes em nome do investigado”.
O passaporte original havia sido entregue em 18 de setembro de 2023 à Vara de Execuções Criminais de Uberaba (MG). Ainda assim, nenhuma dessas informações foi identificada pelos servidores do consulado.
MANDADO DE PRISÃO EM ABERTO
O mandado de prisão contra Apolo Carvalho da Silva está vigente desde 2024, mas não foi detectado no processo de emissão do novo documento.
PASSAPORTE EMITIDO EM ÁREA CONSULAR
O novo passaporte foi concedido em 29 de setembro, com assinatura do vice-cônsul Gustavo Alexandre Magalhães, sob a justificativa de ter sido “concedido em substituição a passaporte extraviado”. O consulado funciona na Cidade do México, onde também atuam representantes da Polícia Federal, incluindo um delegado e um agente.
Mesmo assim, nenhuma das autoridades envolvidas identificou o mandado de prisão nem as restrições judiciais impostas ao investigado.
VIAGEM À ESPANHA
Após obter o passaporte, Apolo permaneceu no México para levantar recursos financeiros. Em dezembro, embarcou para a Espanha, onde foi acolhido por Oswaldo Eustáquio, outro apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que também responde a processos no Brasil.
PEDIDO DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL
Já em solo espanhol, Apolo procurou a polícia na cidade de Almería, a cerca de 540 quilômetros de Madri, e formalizou o pedido de “proteção internacional”. Atualmente, ele vive na capital espanhola e deverá comparecer no dia 16 de abril à brigada da Direção Geral da Polícia para a primeira audiência do processo.
ESTRATÉGIA DA DEFESA
O bolsonarista é representado pelo advogado Fábio Pagnozzi, que também atua na defesa da ex-deputada Carla Zambelli, foragida e presa na Itália. A estratégia é repetir o resultado obtido por Oswaldo Eustáquio, que recebeu proteção na Espanha e não foi extraditado.
“A Espanha se mostrou muito receptiva às pessoas do 8 de Janeiro”, afirmou Pagnozzi ao UOL. Segundo ele, o pedido equivale a asilo político e se baseia na alegação de “perseguição política” no Brasil.
PROVAS DAS INVASÕES
Perícia da Polícia Federal encontrou no celular de Apolo vídeos que o mostram dentro das sedes dos Três Poderes durante os ataques de 8 de janeiro de 2023. Nas imagens, ele aparece usando boné branco, máscara improvisada com a bandeira do Brasil e camiseta azul. Em alguns trechos, é possível ouvir frases como “tá invadido”, “tudo nosso” e “é nosso”, conforme laudo do perito Jorge Ricardo Oliveira.
ACORDO RECUSADO
Apolo foi preso apenas no dia seguinte aos ataques, no acampamento montado em frente ao Quartel-General do Exército, o que impediu denúncias por crimes mais graves. Em janeiro de 2024, recusou um acordo proposto pelo Ministério Público que previa confissão, multa de R$ 20 mil, serviços comunitários e participação em um curso sobre democracia.
A defesa sustenta que as acusações são genéricas e afirma que o investigado temia ser preso por eventuais descumprimentos das regras impostas pela tornozeleira eletrônica.
Segundo Pagnozzi, Apolo também receia que, caso retorne ao Brasil, a perícia do celular seja usada para pedir o agravamento da pena, com inclusão de crimes como golpe de Estado e dano ao patrimônio público.