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Por que a Guerra do Paraguai voltou ao centro de crise entre Brasil e Paraguai; entenda

Declaração de Lula reacendeu debate sobre as causas do conflito e as diferentes interpretações históricas da guerra

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  • Presidente Lula afirma que Paraguai invadiu Brasil durante Guerra do Paraguai, gerando reação diplomática do Paraguai.
  • Governo paraguaio convoca embaixador brasileiro e aprova manifestações contra declarações de Lula.
  • Historiadores contestam versão tradicional da guerra, que atribuía responsabilidade ao imperialismo britânico.
  • Novas pesquisas indicam que conflito resultou de disputas regionais, não de intervenção externa direta.
  • Guerra do Paraguai, que durou cinco anos, deixou impactos profundos na população paraguaia e na região.
Guerra do Paraguai que dizimou cerca de 70% da população paraguaia | Foto: Domínio Público
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A Guerra do Paraguai voltou ao centro de uma crise diplomática entre Brasil e Paraguai após uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o conflito. A fala levou o governo paraguaio a convocar o embaixador brasileiro em Assunção e reacendeu discussões sobre as origens da guerra, além de colocar novamente em evidência interpretações históricas que vêm sendo revisadas por pesquisadores nas últimas décadas.

Fala de Lula gerou reação do Paraguai

Durante um evento realizado na última sexta-feira (24), em São Paulo, Lula afirmou que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil", ao comentar sobre a importância dos investimentos na indústria de defesa.

"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", declarou o presidente.

A declaração foi interpretada por autoridades paraguaias como uma simplificação das causas da guerra. Em resposta, o governo do presidente Santiago Peña convocou o embaixador brasileiro José Antônio Marcondes de Carvalho para prestar esclarecimentos. O Congresso do Paraguai também aprovou manifestações de repúdio às declarações.

Historiadores contestam versão ensinada por décadas

O episódio reacendeu um debate que já divide especialistas há anos. Durante muito tempo, escolas brasileiras ensinaram que a guerra teria sido estimulada pelo imperialismo britânico, interessado em impedir o crescimento econômico do Paraguai.

Essa interpretação, difundida principalmente a partir da década de 1970, passou a ser questionada por historiadores como Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB).

"Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região", afirmou o historiador em entrevista à BBC News Brasil.

Segundo Doratioto, pesquisas realizadas em arquivos do Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Inglaterra apontam que não há evidências documentais de que o governo britânico tenha planejado ou incentivado diretamente o conflito.

Foto antiga mostra o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. — Foto: Domínio público 

Nova interpretação sobre as causas da guerra

A historiografia mais recente entende que a guerra foi resultado principalmente das disputas políticas e territoriais entre os países da região. O conflito começou oficialmente em 13 de dezembro de 1864, quando o Paraguai declarou guerra ao Brasil e, no dia seguinte, invadiu a então província de Mato Grosso.

Para Doratioto, o Paraguai vivia dificuldades econômicas e geográficas por não possuir acesso ao mar e buscava ampliar sua influência regional. O historiador destaca que o projeto de modernização do país tinha foco militar e não representava um modelo avançado de industrialização, como sustentava a versão difundida durante décadas.

O pesquisador também afirma que empréstimos concedidos por bancos ingleses ao Brasil e à Argentina durante a guerra não comprovam participação do governo britânico na decisão de iniciar o conflito. Segundo ele, apenas cerca de 12% das despesas brasileiras foram financiadas por crédito externo.

Narrativas foram influenciadas pelo contexto político

Doratioto avalia que a versão que atribuía aos ingleses a responsabilidade pelo conflito ganhou força durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) por servir de contraponto ao regime e ao discurso contra o imperialismo.

Ele lembra que o livro "Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai", publicado em 1979 pelo jornalista Júlio José Chiavenato, teve grande influência na popularização dessa interpretação. "Ele tem o grande mérito de reviver o tema que estava abandonado pelos historiadores", reconhece o pesquisador, embora critique a metodologia utilizada na obra.

Conflito deixou marcas profundas na América do Sul

Travada entre 1864 e 1870, a Guerra do Paraguai colocou o país contra a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. Considerado o maior conflito armado da história da América Latina, o confronto provocou enorme devastação no Paraguai.

Segundo estimativas citadas por Francisco Doratioto, a população paraguaia caiu de cerca de 400 mil habitantes para menos de 190 mil ao fim da guerra. "Do sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças", afirma o historiador.

Mais de 160 anos após o término do conflito, a guerra continua sendo objeto de debates acadêmicos e políticos, demonstrando que suas consequências históricas ainda influenciam as relações entre Brasil e Paraguai.

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