- Estados Unidos pressiona eleições no Brasil como parte de estratégia em toda América Latina, segundo professor da FGV.
- Lista de exigências dos EUA incluía garantias de eleições "livres e justas" e liberdade para "dissidentes políticos".
- Revelação da lista ocorreu em 17.set.2026, com 21 pontos, quatro relacionados a temas políticos e institucionais.
- Professor afirma que pressão dos EUA se estende além da eleição, incluindo demandas sobre portos e empresas estrangeiras.
- Analista destaca que estratégia de pressão pública é dominante, mas não garante uso de outras medidas.
A pressão dos Estados Unidos sobre eleições no Brasil faz parte de um projeto voltado a toda a América Latina, avaliou o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel. A análise discute a lista de exigências que os EUA enviaram ao Brasil nas negociações do tarifaço, revelada em 17.set.2026, que incluía garantias sobre a disputa de 2026 e a participação de "dissidentes políticos".
EXIGÊNCIAS DOS EUA VÃO ALÉM DO COMÉRCIO
A lista enviada ao Brasil durante as negociações do tarifaço foi revelada pela imprensa nacional na 5ª feira (17.set.2026). Entre os 21 pontos, quatro tratavam de temas políticos e institucionais do país.
Um deles cobrava a garantia de eleições "livres e justas" em 2026 e pedia que "dissidentes políticos" não fossem presos, detidos ou impedidos de disputar o pleito. O governo brasileiro rejeitou essa e outras propostas e afirmou que questões judiciais e de soberania não estariam na mesa.
Para Stuenkel, o documento mostra uso político das tarifas. "O governo Trump utiliza tarifas para atingir metas em áreas não relacionadas ao comércio", disse. Segundo ele, o texto "explicita claramente o desejo por parte dos Estados Unidos de interferir em assuntos internos".
PRESSÃO DOS EUA SE REPETE NA AMÉRICA LATINA
O professor avalia que o episódio não é isolado. "O que estamos vendo no caso brasileiro faz parte de um projeto que se aplica a toda a América Latina", afirmou. O que chama atenção, para ele, é o quanto essas ameaças são explícitas.
Stuenkel cita dois casos. Na Argentina, Trump manifestou preferência por um dos lados na eleição legislativa do ano passado e disse que a ajuda americana poderia não durar caso o grupo adversário de Milei vencesse. O professor esteve no país e avaliou que o apoio provavelmente ajudou o resultado do atual presidente, num cenário de moeda fragilizada.
O segundo caso é Honduras. Segundo ele, Trump ameaçou uma crise na relação bilateral caso seu candidato preferido, Nasry Asfura, não fosse eleito. Por ser um país dependente dos EUA, a declaração também pode ter afetado o eleitorado.
CASOS VÃO ALÉM DO PERÍODO ELEITORAL
A pressão não se restringe a períodos eleitorais, afirma o professor. Ele mencionou o Peru, cobrado a excluir atores chineses do controle de um porto estratégico, e o Panamá, pressionado a expulsar empresas chinesas que operam portos no canal.
Fora da região, citou Alemanha, Austrália e Canadá. No caso alemão, o vice-presidente J.D. Vance esteve no país antes das eleições e sinalizou preferência pelo AfD. Na Austrália e no Canadá, avalia, a pressão teve efeito contrário: candidatos alinhados a Trump saíram prejudicados, com eleitores que passaram a ver a soberania sob risco.
O QUE VEM A SEGUIR NAS NEGOCIAÇÕES
Stuenkel diz que boa parte da movimentação é feita sem expectativa de sucesso total. "Existe uma percepção aqui em Washington de que o governo Trump tenta algumas coisas e vê o que cola", afirmou o pesquisador, que está na capital americana.
Segundo ele, há também a leitura de que o Brasil, por ser um país maior, não aceitará todas as demandas mesmo sob ameaça. O professor ressalva que a estratégia de pressão pública é a dominante "por enquanto", sem garantia de que outras não venham a ser usadas.