Homens começam a desenvolver doenças cardiovasculares anos antes das mulheres, e essa diferença surge mais cedo do que se imaginava. Um estudo que acompanhou mais de 5 mil pessoas por mais de 30 anos apresenta que o risco começa a divergir por volta dos 35 anos, sobretudo devido da doença coronariana, relacionada ao entupimento das artérias que irrigam o coração.
A pesquisa foi publicada no Journal of the American Heart Association e analisou dados do estudo CARDIA (Coronary Artery Risk Development in Young Adults), uma das maiores coortes de acompanhamento de adultos desde a juventude nos Estados Unidos.
Os participantes envolvidos tinham entre 18 e 30 anos quando entraram no estudo, nos anos 1980, e foram seguidos até a meia-idade.
Sete anos antes das mulheres
Os pesquisadores observaram que os homens desenvolveram doenças cardiovasculares, em média, sete anos antes das mulheres. Quando o foco se restringe à doença coronariana, principal causa de infarto, existe ainda mais diferença: o início acontece cerca de dez anos mais cedo nos homens.
Mais do que confirmar um padrão já conhecido, o estudo detalha também quando essa diferença aparece. As curvas de eventos cardiovasculares começam a se separar de forma consistente a partir dos 35 anos, e vão se distanciando ao longo da vida adulta.
Segundo os autores, esse achado permanece mesmo após o ajuste para fatores clássicos de risco, como pressão alta, colesterol elevado, glicemia e hábitos de vida, o que sugere que a diferença entre homens e mulheres não é explicada apenas por esses fatores.
Padrão antigo, dados contemporâneos
Para especialistas, os resultados reforçam um conhecimento histórico da cardiologia, mas com uma base mais sólida e atual. O médico-pesquisador da Unidade Clínica de Aterosclerose do Instituto do Coração (Incor) e cardiologista da Clínica Sartor, Henrique Trombini Pinesi, explica o que impulsiona estes resultados.
“O estudo reforça um dado epidemiológico que a gente já conhecia, de que os homens desenvolvem doenças cardiovasculares de forma mais precoce. A importância aqui é confirmar isso em uma coorte contemporânea, acompanhada desde a juventude.”
O trabalho também ajuda a esclarecer por que a diferença entre os sexos é mais marcada na doença coronariana do que em outros tipos de problemas cardiovasculares. Em casos de acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo, não houve diferença significativa entre homens e mulheres nas idades analisadas. Já a insuficiência cardíaca só passou a divergir em idades mais avançadas.
os hormônios
A proteção feminina observada nas primeiras décadas da vida adulta está ligada, em grande parte, à ação dos hormônios sexuais.
“Durante o período fértil, a mulher apresenta uma melhora do perfil do colesterol e uma proteção dos vasos sanguíneos por conta dos hormônios femininos. Com a menopausa, essa proteção diminui e o risco cardiovascular aumenta, até se aproximar do observado nos homens”, afirmou Pinesi.
Essa proteção hormonal explica boa parte do atraso, mas não é o único fator envolvido. O estrogênio tem ação antioxidante, ajuda a manter a elasticidade dos vasos e melhora o controle lipídico. Isso explica grande parte da diferença, mas também existe uma questão cultural: mulheres tendem a procurar mais o médico e fazer mais exames preventivos.
O próprio estudo chama atenção para isso. Mesmo após levar em conta indicadores de saúde cardiovascular ao longo da vida, a diferença entre os sexos persistiu, sinal de que fatores biológicos, comportamentais e sociais se combinam.
virada silenciosa aos 35 anos
O dado mais sensível do estudo, segundo especialistas, é o momento em que o risco começa a se separar. A partir dessa idade, as taxas de eventos cardiovasculares em um horizonte de dez anos começam a ser significativamente maiores entre os homens. Para os pesquisadores, isso indica que a quarta década de vida é um período crítico para a prevenção.
Prevenção precisa começar antes
Na prática, os achados reforçam a necessidade de antecipar o olhar para o risco cardiovascular, especialmente entre homens jovens, mesmo na ausência de sintomas.
O estudo reforça uma mudança de postura. O risco deixa de ser baixo quando há histórico familiar ou múltiplos fatores associados, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo, cenário cada vez mais comum em idades precoces.
risco nas mulheres não deve ser minimizado
Os especialistas também fazem um alerta importante: os dados não significam que mulheres estejam protegidas contra doenças do coração. Existe o risco de interpretar esses resultados como se mulheres não infartassem cedo. Isso pode levar à subvalorização de sintomas e ao subtratamento de fatores de risco.
Para os pesquisadores, os resultados do estudo devem ser utilizados para que a prevenção passe a acompanhar o desenho do risco cardiovascular, que começa muito antes do que se imaginava até agora.